Coisas

Fui aluna medíocre, preguiçosa e distraída. Exceto nas humanidades. O caderno preferido era o de caligrafia por causa dos gestos, da forma e do gosto por palavras. Lápis, bloco, estojo, borracha.

Quando a professora disse para a minha mãe que eu escrevia bem porque lia muito, aos 7 anos, pensei que eu era alguém. A mãe e o pai ficaram contentes e a partir daí atribuí a mim mesma uma espécie de contorno. Era um papel. Gostava daquele lugar.

Quando saí da casa dos meus pais, eles ficaram muito tristes. Escrevi uma carta e fui. Melhor por escrito.

E quando atravesso os limites e transbordo no modo drama, está lá o tal contorno da escrita para dar uma segurada? Não. É mais comum eu ficar com enxaqueca, vomitar e dormir para sarar. Talvez depois eu consiga escrever, mas isso não está dado. Ou seja, eu não sei.

Não escrevo para salvar nada (muito menos eu, que já não tenho salvação; uma preocupação a menos).

Por que eu escrevo? Agora, agorinha, para ver se sei por que escrevo. Passei de 250 palavras e vi que não.

(Sempre conto uma história e talvez o meu motivo esteja nessas coisas: quando minha menina tinha quase dois anos, abriu a geladeira sozinha. Normal para os outros; para mim, extraordinário. Foi como testemunhar a descoberta do mundo. De um mundo. Quando ela surgiu rechonchuda e zoiuda para cima do Yakult e da geleia e da manteiga, aposto que surpreendeu todos eles. É por causa de coisas assim que eu escrevo)

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