Janela de papel

Monica Vitti (A Aventura, 1960, Michelangelo Antonionni)
Monica Vitti na janela (e em cena do filme L’Avventura, de Michelangelo Antonioni (1960)). A autoria da foto é desconhecida

– Quantos livros você está lendo ao mesmo tempo? Cinco?, perguntou o homem que vê os créditos finais dos filmes comigo.

Levantei os olhos: talvez.

– Isso possivelmente é igual a não ler nada e…

Espera, interrompi. Romance só leio um. Desta vez, por exemplo, tem mil páginas e quase não sinto a aflição de percorrer um exemplar que já esteve no banheiro, sacrilégio cometido por quem não digo o nome. É quase uma história de superação (minha).

Deixar um livro para ler em cada lugar afasta um pouco o sedentarismo crônico.

Na estante que fica lá fora, ao lado da ergométrica, há sempre um conto para amenizar o sofrimento que é pedalar. Uso os parágrafos de um ensaio para completar uma série de pesinhos enquanto pego o sol no quintal imaginário do nosso quarto.

E para descansar no meio da tarde fico quase imóvel, exceto no virar das páginas. Esse gesto preenche o intervalo entre uma e outra varrição de células de Excel (mecanismo adotado para algum trabalho que, por sua vez, paga esses livros todos).

Fora que uma história pode durar até cinco estações. Colocaria um ponto de exclamação desnecessário aqui, mas acho-o ainda mais excessivo do que este período que acabo de escrever.

– Só há quatro estações, ele diz, acometido de um dos seus ataques de literalidade.

Peço, então, que faça a gentileza de não me interromper quando estou interrompendo (sentença que roubei de biografia que não li, do Winston Churchill, e da qual ele mostrou trechos para mim em voz alta, geralmente à mesa, no café da manhã): me refiro a cinco estações de metrô.

No fim das contas o que eu faço é abrir livros para enfiar o rosto dentro deles como quem abre a janela para pôr o corpo para fora. É lugar-comum também se em dificuldade de estar no mundo. Quantos, nesses casos, é quando. E onde.

P.S. Meu parceiro de créditos de filme explica que a frase do Churchill, que eu tenho usado aqui em casa quando interrompo gente pequena para lembrar de arrumar a cama, foi usada em uma das muitas discussões entre ele e o filho Randolph. Uma convivência longa e tumultuada. Com o próprio pai, Churchill teve pouca convivência e uma marca de toda a sua vida foi a admiração pela figura que se manteve distante. “Ele carregou uma imagem idealizada do pai. Enquanto a proximidade de seu filho sempre produziu conflitos”

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