Planos (mostrar os dentes)

Inventar e viver palavra. Espontanear. Encontrar por aí meninos que carregam água na peneira, como escreveu (e como escreveu) o poeta.

Colocar os pés descalços no chão cru. Sentir a cachoeira gelada esfriar a cabeça e desfazer os nós dos ombros e avermelhar a pele. Pisar nas pedras em falsete. Rir do quase. Mostrar os dentes.

Pegar o bebê no colo. Perceber que ganhou peso, achar graça da marquinha na orelha, deixar sua mãozinha tocar meu rosto nu. Chamar Ana palíndroma de amorinha. Cheirar seus cabelos. Ver meu irmão sendo. Pai.

Saber que as pessoas estão voltando. Saber que nosso amigo acordou e agora pode respirar, pegar sua Cannon e denunciar injustiças e revelar belezas. Ribeirinhos surgem da revoada de borboletas. Menino passarinho voa no Xingu. A boca desenhada, desmascarada e rasgada no tronco da árvore de uma floresta partida. A paisagem marciana no berçário das tartarugas da Amazônia.

Ver minha menina perder o elevador porque esqueceu o caderno. A mochila nas costas. Pegou a blusa? O tempo vai virar. A lancheira? Come as cenouras. Não esquece de beber água. Vai logo. Cuidado. Te amo, tudo.

Me entregar ao cotidiano delirante. Janelas escancaradas, o vento de outono varre a casa.

Escrever, cortar, arrumar, limpar, entregar, receber. Pagar.

Beber café recém-coado com a barriga encostada na pia tinindo de limpa. Fazer um lanchinho para a viagem de volta da escola.

Escovar para mostrar. Os dentes.

Reclamar do trânsito, passar no posto, completar. Censurar meu modo de vida destruidor. Dar uma passadinha no mercado e pegar pão, vinho e salame. Jantar. Bom.

Avisar a mãe que chego no fim de semana, leve de roupa e carregada de livros. Quando estiver lá, lembrar que esqueci. Me empresta uma meia? Não consigo dormir. Sem.

“Acordar cedo para atrasar com calma”, desenharam uma das minhas verdades na camiseta. No metrô vertical, deixaremos o vizinho entrar. Dois andares e a pergunta: qual é mesmo o nome dela? Responder Catarina. Querer dizer que ela tem 9 anos e fala português. Ah, constrangimento social. Saudade. (Espera, isso também não).

Parar na estrada para um lanche. Calcular a que horas vamos chegar. Pedir desculpas à mesa ao lado porque a menina tem medo. E eu também. Resmungar que quem tinha de pedir desculpas era ela: a dama do cachorrinho sem coleira beija o focinho do coitado do bichinho e diz que ele não faz nada. Eu sim, penso e mostro. Os dentes.

Digito: mãe, não te preocupa com o almoço… Vamos pedir aquele pastel no jantar?

Sim.

Ah, pronto. Correndo por fora o interfone interrompe o inventário das coisas impossíveis.  

Chegaram. Feira, pescados, pães. Farmácia. Nunca mais escolher com as próprias mãos? A realidade aflige.

Tem de verificar se o mesmo está antes de embarcar e não esquecer a máscara. O álcool. E o medo.

Dizer ao entregador e ao porteiro que precisam se cuidar (de verdade, mesmo que por dentro queira saber em quem eles votaram em 2018).

Voltar para a caverna. Trancar a porta. Ninguém sai. Ninguém entra.

Banho de sol só na varanda, no rodapé ou perto da janela. Cachoeira só debaixo no chuveiro. Mostrar os dentes só no espelho.

Quanto será que falta para poder esbarrar. Pedir desculpas. Pegar no braço. Dizer que não vou porque prefiro e não pelo compromisso doloroso de tentar parar o trem da morte. Quanto para o quando do desentristecer? Não sei contar.

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