Escrivaninha da peste

Março de 2021. Estou em São Paulo, onde ocupo uma escrivaninha de lâmina de freijó e tampo de fórmica preta sobre pés maciços. Pés palitos. Três gavetas fundas hospedam aflições, alívios e desimportâncias fundamentais.

Neste corpo e nesta casa tenho convivido com uma espécie de paralisia do sono. É intermitente. O episódio neurológico eu chamo de pequena morte: você acorda, só que não consegue nem se mover nem falar. É como despertar para a luta da impotência e do inconformismo que termina empatada todos os dias, por enquanto, há 367 noites.

A mesa é um dos meus lugares preferidos quando não estou morta. Fica no canto avarandado do apartamento, na cidade que Albert Camus chamou de Orã desmedida. Passo muito tempo aqui, de onde vejo o céu e o brilho da poeira que parece purpurina e leio que “Uma forma conveniente de travar conhecimento com uma cidade é procurar saber como se trabalha, ama, morre. (…) Em Orã, como no resto do mundo, por falta de tempo e de reflexão, somos obrigados a amar sem saber”.

Escrevo, hoje, sob a claridade azulada do fim de tarde. Fez bastante calor, o que aumenta o prazer de ouvir o espocar da água com gás, à esquerda do computador. Um gole e meus olhos úmidos encontram outras moradoras. A Peixinho Viçoso, por exemplo, é muito bonita em cachepô amarelo e bojudo. Com suas folhas frias e macias mescladas de branco, roxo e verde, Peixinho nunca duvidou dos meus cuidados (acho). Mas o que a faz exuberante é sua autoconfiança. Eu só molho. E observo.

(Espero que se saibam amadas, também, Peperômia Exibida, Antúrio Estranha da Flor Única e Verde, Filodendro Volumosa e Jiboia Derramada. Espada Guerreira, Pacová Aparecida, Columeia Desmilinguida, Jade e Suculentas Gorduchas.)

De volta à mesa, dois cadernos e 41 livros formam a cordilheira de letras. Se houver atenção para prestar, é possível perceber um movimento. Os livros vêm e vão a trabalho, passeio ou abandono, e coabitam em desordem gostosa. Há lombadas invertidas, pilhas irregulares. Estão sujeitos, esses objetos, a mudanças de vida que só as arrumações caprichosas e as buscas – determinadas ou distraídas – podem provocar. Caneta, jornal, régua e papel de paçoca esnobam os menos espontâneos marcadores de página.

Tem ainda lupa, grampeador, pedra, clipes multicoloridos. Removedor de grampo, tesoura, abridor de cartas. Durex. Um conjunto de lápis de cor em tons antigos. Um montinho de papel almaço – mentira, é sulfite, mas estava com nostalgia de almaço pautado e com margens.

Uma embalagem de ibuprofeno tombou entre a latinha de hidratante e a trena manual: basta puxar o nariz do Pinóquio para saber que o móvel tem 123 centímetros de largura. Só não mede dor, a trena.

E se eu tivesse colocado a luminária de globo terrestre dez centímetros mais à direita eu poderia escrever: meu mundo caiu. Distrativo e luminoso desde o núcleo, o planeta sempre atrai a minha mão. Giro, aliso, forço a vista para encontrar um ponto na Sibéria, mas o que o abajur revela agora é um copo vazio.

Levo a taça da realidade para a pia, onde a água dissolve os vestígios do vinho Latido de Sara – um dos sentidos da palavra latido, em espanhol, é a batida do coração. Suspirei. Anoiteceu. Pequena morte.

Espero que você tenha conseguido imaginar a escrivaninha que me ampara entre um e outro espasmo. Caso contrário, a culpa é minha. Se não disse logo de cara que para mim a mesa de freijó é como chegar em casa, foi para te fazer espiar comigo o abismo por cima deste ponto final.

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