Acidente de existir

Breve inventário de dores e quedas
Do mundo interior toda a gente não escapa

Caí da cama e cortei a parte da orelha que é aguda nos elfos. Muita dor e a pergunta que durou o tempo de lavar dois cortes largos: e se a esquina da mesa que quebrou ao interceptar um sonho abriu meu crânio e os segredos escorregaram para fora? Por via das dúvidas, voltei ao local do acidente: uma xícara de porcelana partida em pedaços e o chá adormecido que molhou o chão. Juntei os cacos. Um pouco de sangue desceu pelo meu pescoço. Wabi-sabi.

Dias depois, uma prateleira grossa, expressão de insuportável solidez, comportou-se como se fosse de cristal e suas lâminas em crise rasgaram a superfície dos meus pés. Esquerdos. Essas marcas – riscos vermelhos, uma chuva – se impuseram no meio de uma rotina de limpezas. Foi assim: eu tinha terminado um desses circuitos de arrumação da casa que ajudam a enganar os medos e, no meio do banho, quando eu pensava de olhos fechados no que a menina tinha dito mais cedo (“O perfume do shampoo de bambu é aberto, igual a correr livre na floresta junto com o panda, mamãe. O de coco é doce e fechado”), pá! Um panda. Sem mais nem menos a prateleira despencou e o que era vidro se quebrou em mim.

Houve uma outra dessas horas cheias de si e de “e se”: deixei escapar a corda do varal. Dedos lisos. Ele despencou do teto em mim e jogou meus pensamentos pela janela. Meio corpo para fora e não agarrei nada. Antes de me reerguer consegui reprovar rapidamente o vaivém indevido sobre o asfalto pandêmico – e até desejar algo bem ruim, pior do que ruim, para você sabe quem. Daquele terceiro desencontro violento nasceram uma coroa de estrelas e muitas perdas de raciocínio.

Esses acontecimentos que atravessam a alergia do contato saem da superfície para ferir bem fundo meu isolamento essencial. Me obrigam.

Não lamento que a história não tenha nem moral nem fim. Só arestas oportunistas. Um golpe, uma queda, um corte. Um braço marcado a ferro quente na pressa de puxar a assadeira para salvar o bolo de banana. E Sacis. Se não estou olhando eles arrastam móveis, porque só isso para explicar o quanto esta poltrona e aquelas cadeiras aparecem nos hematomas. Quando existo esbarro para não esquecer de estar aqui. Diariamente.

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