Sem compaixão

Estou no dia 52 da quarentena. Quando for a hora de voltar, colocarei só a pontinha dos pés. Aos poucos.

O domingo sempre foi melancólico em mim – e eu gosto. Mas hoje parece que estão frágeis os analgésicos que invento ao longo dos dias na tentativa de me bastar em meu corpo, nos limites do meu mundo; no desejo de atribuir sentido à ausência do beijo espontâneo, abraço forte, suspiros liberados, ruas que a gente atravessava de mãos dadas em passinhos apertados.

Depois do almoço, leio e cochilo e acordo. Lembro do que vivemos. Volto a ler, adormecer, riscar linhas. Ler, deixar cair o lápis e dormir outra vez.

Até que, nesse descaminho, o ruído do bar da rua ao lado se choca com o vidro da janela. Eles voltaram. O cantor que tortura versos e agride o violão e o público que aplaude a cena sem nenhum pudor. Se apropriam da música, a maltratam e emporcalham os dias.

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Encaixo os fones no ouvido. Gerry Mulligan em “Morning of the Carnival”. Que desobediência gostosa é chorar amor e beleza.

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A dor mais forte hoje é a de não poder visitar meus pais e ver minha filha mover-se entre eles em gestos cúmplices. Essa cena que é riacho cristalino e barulho bom chega a ficar ofendida por estar no mesmo amontoado de linhas do (tenho de separá-los aqui)

desprezo em estado bruto que aqueles imprestáveis representam. Além de raiva e nojo, sinto o que não sinto. Compaixão. Nenhuma. Eu quero mais é que se danem.

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Quando vi o primeiro episódio de Chernobyl, numa vida antes desta, mergulhei em um abismo na cena em que os moradores do vilarejo começam a sair de suas casas para ver. Era a primeira hora da explosão, acho. O horizonte expelia luz. A radiação invisível avançava sobre aquela gente surpresa e curiosa que fechava os olhos ao se deixar envolver na revoada delicada de cinzas. Na ilusão. Homens, mulheres, crianças. Uma daquelas coisinhas cai no rosto de um bebê. Tão leve. Todos juntos, venham ver. É estranho. Estamos mortos. Não sabemos.

Ainda não era palpável para eles o assombro e a dor que em poucas horas cairia sobre todos. Estavam presos naquele espaço e tempo sem ter uma vida para voltar. Queriam ir . Podiam, não deviam, não sabiam. E não tinham como se defender.

Foi insuportável. Senti o que não sinto agora pelos orgulhosos proprietários da voz que canta o deboche. Compaixão e respeito e vontade de lhes contar o que sei, mas, como em um sonho, a voz não sai. Impotente.

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