Quarentena 52: sem compaixão

Estou no dia 52 da quarentena. Quando for a hora de voltar, colocarei só a pontinha dos pés. Aos poucos.

O domingo sempre foi melancólico em mim – e eu gosto. Mas hoje parece que estão frágeis os analgésicos que invento ao longo dos dias na tentativa de me bastar em meu corpo, nos limites do meu mundo; no desejo de atribuir sentido à ausência do beijo espontâneo, abraço forte, suspiros liberados, ruas que a gente atravessava de mãos dadas em passinhos apertados.

Depois do almoço, leio e cochilo e acordo. Lembro do que vivemos. Volto a ler, adormecer, riscar linhas. Ler, deixar cair o lápis e dormir outra vez.

Até que, nesse descaminho, o ruído do bar da rua ao lado se choca com o vidro da janela. Eles voltaram. O cantor que tortura versos e agride o violão e o público que aplaude a cena sem nenhum pudor. Se apropriam da música, a maltratam e emporcalham os dias.

***

Encaixo os fones no ouvido. Gerry Mulligan em “Morning Of The Carnival”. Que desobediência gostosa é essa de chorar amor e beleza.

***

A dor mais forte hoje é a de não poder visitar meus pais e ver minha filha movimentar-se entre eles em gestos cúmplices. Essa melancolia em mim é tão bonita e transparente, tão riachinho cristalino e barulhinho bom, que chega a ficar ofendida (tenho de separá-los aqui)
… chega a ficar ofendida de estar no mesmo amontoado de linhas do desprezo em estado bruto que aqueles imprestáveis representam. Além de raiva e nojo, sinto o que não sinto. Compaixão. Nenhuma. Eu quero mais é que se danem.

***

Quando vi o primeiro episódio de Chernobyl, numa vida antes desta, mergulhei em um abismo na cena em que os moradores do vilarejo começam a sair de suas casas para ver. Era a primeira hora da explosão, acho. O horizonte expelia luz. A radiação invisível avançava sobre aquela gente surpresa e curiosa que fechava os olhos ao se deixar envolver na revoada delicada de cinzas. Na ilusão. Homens, mulheres, crianças. Uma daquelas coisinhas cai no rosto de um bebê. Tão leve. Todos juntos, venham ver. É estranho. Estamos mortos. Não sabemos.

Ainda não era palpável para eles o assombro e a dor que em poucas horas cairia sobre todos. Estavam presos naquele espaço e tempo sem ter uma vida para voltar. Queriam ir . Podiam, não deviam, não sabiam. E não tinham como se defender.

Foi insuportável. Senti o que não sinto agora pelos orgulhosos proprietários da voz que canta o deboche. Compaixão e respeito e vontade de lhes contar o que sei, mas, como em um sonho, a voz não sai. Impotente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s