O que não podemos ver

À noite, quase como sempre, tão tarde. Cada uma recolhida em seu quarto, nas agitações internas, outros mundos. A menina murmurava histórias, cantarolava. Percebi nas entrelinhas, na entonação da voz e na vibração dos gestos que eu não podia ver: ela guardava os brinquedos, distraída, e procurava um Macanudo.

Disparou de repente e em um salto estava ao meu lado. Antes de não dizer pelo olhar furiosamente esforçado em não rir para ela enfiar os pés em uma meia, misericórdia, quantas vezes eu tenho que falar?, desconfiei em voz alta: teve uma ideia perigosa, né…

– Não, mamãe, é que eu nunca tinha parado para pensar que a gente vive em um mundo com tantos outros seres que estão vivos e fazendo tantas outras coisas neste exato momento. E não me diz que eu não preciso parar para pensar. Eu sei e você sempre faz essa piada. Estou falando sério.

Tirei de vez os olhos da ficção científica que me assombrava. No fundo, passou rápido pela minha cabeça que “ah, tá, queridinha, só agora você percebeu que não é a única”.

– É que, mãe, eu pensei que enquanto eu mexo as coisas, mudo de lugar e procuro um livro lá no quarto em outros lugares tem outras pessoas fazendo outras coisas ou exatamente a mesma coisa que eu e ninguém vê o que o outro vê e faz igual e pensa diferente. Tantas pessoas. Me deu um arrepio. Você já pensou uma coisa dessas?

Que há outras pessoas existindo bem agora e que não podemos ver? Já. E tem umas coisas que é bom não ver mesmo…

Olha só, filha, eu vejo você aqui na minha frente [e amo muito, senti] e você não vê você. Você só vê a mamãe vendo você. Não vê o que eu vejo quando vejo você (ai).

– Mãe, a gente pode se ver vendo a outra se a gente conversar na frente do espelho.

Mais ou menos, Cata. Primeiro, eu te vejo por dentro de mim. E só eu vejo com os meus olhos. E só você me vê com os seus e, segundo… – Para, mãe, viu o que eu te falei? É demais. Me dá arrepio pensar nessas coisas.

Não disse para ela que esse arrepio não tem fim. Ela foi embora e, mais tarde, quando terminei o capítulo, precisei deitar um pouquinho com ela para conseguir dormir.

Estou lendo A Curva Do Sonho, de Ursula K. Le Guin. Tradução de Heci Regina Candiani

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