A magia da realidade

Dos confins do universo para o dia a dia: é no cotidiano ordinário que o extraordinário se manifesta. Debaixo do nosso nariz. Foto: Pixabay

Dos confins do universo para o dia a dia: é no cotidiano ordinário que o extraordinário se manifesta. Debaixo do nosso nariz. Foto: Pixabay

De repente, a menina largou os brinquedos. Do alto de seus cinco anos, bochechas redondas e rosadas, apontou o narizinho na direção da mãe: – Como foi que nasceu o primeiro homem, mamãe? E a primeira mulher? Eles brotaram do chão? Como tudo começou? A adulta da sala ergueu as sobrancelhas. Precisou controlar a intensidade do suspiro, marcou a página devagar, fechou o livro sobre o colo e se ajeitou na poltrona. Ganhava tempo. Por fim, disse que não sabia muito bem como explicar. – Tá bom… Então depois você diz? E assim a guria voltou ao zum-zum-zum da conversinha entre os bonecos e deixou a mãe em dúvida. E em dívida.

Uma amiga soube dessa conversa e sugeriu à mulher que comprasse o livro A Magia da Realidade*. O trabalho do cientista e escritor britânico Richard Dawkins, com ilustrações de Dave McKean, pretende mostrar de um jeito leve que o mundo real tem sua própria magia. É o que o autor chama de “beleza inspiradora”. Os títulos dos capítulos são perguntas assim: quem foi a primeira pessoa? Do que são feitas as coisas? Quando e como tudo começou? O recheio guarda respostas. E outras perguntas. E desenhos instigantes.

Contei essa breve história sem fim sobre buscas e descobertas, porque esta edição da revista do Clube Paladar [publicação do Estadão e da Grand Cru para o clube de vinhos do jornal] vai além da seleção de vinhos, da entrevista com o enólogo, dos pratos para celebrar ritos de passagem de Páscoa em todo o mundo. Traz as receitas de abrir o apetite e alimentar ideias, os palpites de gosto e as sugestões de viagem (Austrália, Japão…).

Não desligue ainda, porque tem mais. O artigo de inspiração, na página 28, é sobre outro livro inesperado e interessante, que fala de ciência no cotidiano, nas coisas ao redor. Fala do que parece tão ordinário que passamos por cima, não nos damos ao trabalho de escavar para encontrar sentidos. Empurramos com o quadril aquela gaveta que não quer fechar e vamos embora. Amanhã, de novo. O que o livro diz é que, para variar, não precisa ser assim.

O nome é Tempestade numa Xícara de Chá e a autora, a física Helen Czerski, propõe: e se todo mundo se deixar levar de quando em sempre pela curiosidade? E se a gente abandonar o lugar-comum pela espontaneidade de querer saber das engrenagens, dos padrões, do que move o mundo e se expressa (também) na cozinha de casa? Só para se divertir. Só para saber.


O que há nas repetições, fora uma sensação de estar em terreno conhecido? Não se trata de desvendar os segredos do universo, e sim de propor um modo mais curioso de encarar os dias. Outra perspectiva. Precisamos ser mais como aquela outra criança que, ao ver as pessoas correndo na academia, na esteira, sem sair do lugar, não se conforma: ela simplesmente pergunta aonde querem chegar. Para onde vão com tanta pressa? A criança questiona a suposta normalidade. Faz sentido. É ler para ver.

Até a próxima.
Fiquem bem,

*A Magia da Realidade, escrito por Richard Dawkins e ilustrado por Dave McKean, é publicado no Brasil pela Companhia das Letras.
A tradução é de Laura Teixeira Motta

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