Parábola de inseto sem lugar

Deitamos juntas. Ela estava com sono, mas queria companhia. Eu queria terminar de ler ‘Sem Lugar no Mundo’, de Françoise Frenkel. Para resolver, ela vestiu uma dessas máscaras de dormir.

Na página 107, comecei a ouvir um zunido, o zum-zum do que parecia ser uma mosca. Perturbação que não suportei por muito tempo. Levantei, apaguei a luz do cômodo e abri a porta, ligando o interruptor do corredor na esperança de que a iluminação atraísse a ‘fosse o que fosse’, mariposa ou mosca, porque o barulho me irritava e o pedaço da vida na França (ocupada pelos nazistas durante a Segunda Guerra) da livreira polonesa e judia estava muito, muito tenso. Era 26 de agosto de 1942 em Nice e ela, que há tempos não tinha o sossego de um lugar para “recostar a cabeça”, andava pela rua quando percebeu por acaso que estavam recolhendo os judeus da cidade. Seu nome provavelmente estava na lista de procurados (…).

Tudo isso e o zum-zum e as trombadas do inseto na capa do livro, como se este fosse luz, me davam sobressaltos medonhos. Eu precisava me livrar do bicho.

Por algum tempo, silêncio. Voltei a ler.

Françoise foi salva por amigos amorosos que a esconderam em sua casa. Até que um dia um cabo apareceu naquele refúgio para fazer uma vistoria. Eles tinham sido denunciados. Por sorte, não a viu. Quando a livreira saiu do armário em que estava escondida, decidiu partir para um outro esconderijo fora da cidade. Não queria prejudicar a família, que teria o mesmo fim dela se eles fossem apanhados.

Aflita, percebo um ponto escuro se movendo na almofada. É uma joaninha. Não é vermelha. Suas asas são cobertas de um intenso marrom metálico por baixo das pintas. Ah, é você.

Sem pensar muito, fiz com que ela subisse na página 109, abri a janela e a botei para fora. Um sopro. Um golpe. Acabou.

Deitei outra vez, mas daí as letras começaram a embaralhar e em meu peito surgiu um mal-estar, um sentimento estranho de que eu tinha acabado de fazer merda.

Hoje cedo, essa foi a primeira coisa que eu contei para a menina. Ela ouviu atentamente até a hora do sopro e da minha pergunta que já era resposta: ‘Acho que a mamãe fez uma besteira, né?’

– Fez. Você poderia ter levado ela para outro lugar da casa e voltado aqui para ler em paz.

‘Puxa, que mancada’

– Mãe, você matou a Joaninha.

‘Acho que matei…’

– Ela é frágil, moramos no 15º andar. Ela não ia ter força para voar. Aqui venta muito. Mas agora já foi. Não faz isso de novo.

‘Pior, dizem que Joaninha dá sorte. Ela nos perseguiu, a sorte, e eu a joguei pela janela…’

– Mãe, acho que você está mais preocupada com a sua sorte do que com a vida das joaninhas.

fim

*O livro que eu estou lendo se chama ‘sem lugar no mundo’. tem prefácio de patrick modiano e tradução de heliete vaitsman. a editora é bazar do tempo.

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