Mensagem na garrafa

Gente. Que intenso. Das desimportâncias mais importantes: há algum tempo, fui espirrar no Sebo do Messias com minha sobrinha piormente alérgica. Não sabíamos o que estávamos procurando – ela sabia, na verdade, muitas coisas. Eu, quase como sempre, não. Mas penso que era mais bonito escrever assim. Na milionésima volta, encontramos um exemplar de ‘O que os cegos estão sonhando?’, de Noemi Jaffe. Era um livro autografado por Noemi, Lili e Leda. A autora, sua mãe e sua filha.

Na época, a sobrinha já morava bem longe e estava de passagem. Comprou o livro, foi embora e depois de algumas semanas mandou-o de avião até a minha casa. Tinha devorado.

Eu não devolvo livros. É por isso que não os peço emprestados. Mas eu os pego, se a pessoa colocar na minha mão. Não é maldade: simplesmente não sei devolver.

Fazia pouco eu havia lido o belo ‘Írisz – As Orquídeas’, da mesma Noemi, e ainda estava meio mexida com ele. Então eu guardei ‘O que os cegos…’ para um outro momento. Ele logo arranjou um bom lugar aqui em casa. E os livros, acho, têm uma hora incerta de chegar.

Corta para o dia em que pedi indicações de podcast para uma viagem longa de carro. Recebi muitas coisas boas. Entre elas, o Pedro Guedes sugeriu que eu ouvisse o Anticast da economista Laura Carvalho. Reservei, porque estava começando a ler o livro escrito por dela. E os podcasts, sei lá, devem ter sua hora incerta de chegar.

Hoje, pesquisando para um trabalho, esbarrei no Anticast de novo. E (já que…) resolvi entrar (é, eu sou um pouco lenta para coisas rápidas). Fui abrindo as portas e me distraí, interessada por um programa chamado Projeto Humanos (“histórias íntimas de pessoas comuns”).

Resolvi escutar o primeiro episódio (‘O mal puxa o mal’) da primeira temporada (‘As filhas da guerra’). Ele conta a história de ‘O que os cegos estão sonhando?’. O livro que eu ainda não li.

(resumo do programa por ele mesmo: “Na estreia de As Filhas da Guerra, primeira temporada do Projeto Humanos, Ivan Mizanzuk apresenta Lili Jaffe, iugoslava judia que foi prisioneira em Auschwitz, durante os anos de 1944 e 1945. Neste primeiro episódio, conhecemos um diário misterioso, aprendemos como era a vida de Lili na Iugoslávia e como começou a perseguição a judeus em sua cidade.”)

Eu precisava ouvir. E suspeito que muita gente pode estar precisando disso também. Agora.

Pelo jeito, chegou a hora incerta do livro para mim. Tirei do lugar em que estava descansando e levei para a mesa da cabeceira.

Estou contente por terem ido parar no sebo (o livro, a sobrinha e eu).

Estou contente por esses fios soltos que se esbarram.

Tem gente boa fazendo coisas — coisas boas, como mandar um livro, sugerir uma escuta, escrever o livro que um dia alguém vai mandar. Gravar o podcast que o outro precisa ouvir para mover umas pedras íntimas.

Em ‘A lentidão’, Milan Kundera escreveu que a sabedoria epicurista tem um fundo melancólico: “atirado à miséria do mundo, o homem constata que o único valor evidente e seguro é o prazer, mesmo pequeno, que ele próprio pode sentir: um gole de água fresca, um olhar para o céu, uma carícia”.

Estamos na miséria. Do nosso mundo. É o que temos. Então, uma atenção dada às palavras e às histórias e ao que elas juntas nos fazem perceber é um gole de água fresca (a minha pode ser com gás, por favor). Um prazer. Uma carícia.

Não sei o que exatamente eu ia dizer. Mas era algo como leiam, ouçam. Recomendo. Achei que eu precisava fazer isso. Vai que tem alguém precisando ler, ouvir. Escrever. Mensagem na garrafa.

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