Meio crua. E sem palavras

Tenho para sempre em um lugar dentro de mim a melancolia dos meus tempos de colégio, na infância. Em casa, tudo era bom. Na escola, preferia estar em outro lugar. Sempre pensando em outra coisa. Na bicicleta azul, por exemplo, para descer a rampa do quintal de lajota vermelha.

Meus pais nunca regulavam livros e sempre nos levavam para passear. Aos domingos, íamos ver os avós e em uma rua que se chamava Banda eu ficava mexendo na penteadeira antiga das minhas tias paternas, que vaidosas. Elas faziam feijão e café incríveis. Eram domingos de arroz e feijão, e também de boca brilhando de frango assado e macarrão.

A vida era muito boa para mim. Ainda é. Eu é que sou chata. Mas hoje aquela melancolia insinuante de véspera, desde o domingo à noite, quase dá para pegar com as mãos. É que ela me visita, às vezes, como agora, quando eu estou sozinha na tarde chuvosa atrás do pouco que eu tenho muito: a mesa de trabalho cheia de papeis, de outras coisas perdidas como eu e de muitos lápis.

Fecho esses dois livros que não consigo largar desde domingo à noite. Tudo é domingo à noite. Que espanto. Fecho sem poder ler. Só andamos juntos. Não há clima. É como se eu estivesse cheia de nada. (Tenho, no entanto, muita fome sem fim).

***

“Está na ponta da língua”, eu falava para a professora, sem saber o que dizer na chamada oral. Eu devia ter dito que estava sem palavras. Quanto é nove vezes sete? “Estou sem palavras, tia Magali.” Disse que tava na ponta da língua e pude ver na ponta da língua dela algo como “bela bosta, essa menina cara de pau que não estudou a tabuada, de novo”.

Preguiça eu tinha de sobra. Resposta, não queria dar nenhuma. Ainda tenho. Preguiça. E continuo preferindo não.

Bato a janela eletrônica e ergo as mãos do teclado para o rosto. Credo, que fingido espanto: como eu era péssima e folgada. Desde os dois anos de idade essa cara de encrenca (as fotos dizem). E agora, para ajudar, toda vez é isso. Não consigo escrever. Não consigo ler. Estou triste. “Hmm, está na ponta do dedo.” Na ponta do dedo muito triste.

***

Penso que preciso de um recreio. Seria maravilhoso agora esticar meu braço e alcançar a minipizza de queijo da cantina do colégio: massa muito branca, densa, macia e dobrada sobre recheio gordo salpicado de orégano. Nem tomate nem azeitona. Só queijo, na quantidade de muito.

Eu devia ter uns oito ou nove anos quando tive um daqueles estirões de corpo que cresce depressa e o braço ficou longo o suficiente. Eu já conseguia pedir antes que acabasse a fornada. A um dos cantineiros, mesmo sem conseguir me ouvir, bastava ver a nota amassada na mão em meio “ao pessoal” que aos meus olhos daquele tempo era sempre mais tudo. Velho, sortudo, maior, forte, bonito, de voz mais potente e em geral mais suado e cheirando a recreio corrido e brincado. Fedidos, porém eu tinha inveja: preenchiam tão bem aquele agasalho azul marinho que as freiras nos obrigavam a usar. Meu corpo embrulhado naquela roupa nunca era o que eu precisava para estar ali. Só um corpo miúdo embrulhado e desacostumado.

Não. Eu não era triste. Era eu. Isso tudo é anormal.

Às vezes, aquela turma muito viva – e aparentemente mais bem-sucedida do que eu na arte de passar a tarde – empurrava tanto que se formava uma massa compacta e móvel que me colocava de corpinho encostado no balcão, primeira da fila. Sorte. Minipizza, por favor.

Ela despontava, majestosa promessa de contentamento, de um saquinho branco de papel. Grudava um pouco nas extremidades quando muito quente e, nesse caso, eu comia papel junto sem nenhum problema. Comeria agora. A primeira mordida. Feliz. A massa, tão branca, tangenciava a crueza. Era mal-assada mesmo, tudo feito às pressas que o recreio é pequeno grande caos e logo os minutos desaparecem e todos somem para dentro das salas. Só silêncio. Uma paz.

O cheiro (da minipizza) lembrava o do fermento fresco – e o da bolinha de massa antes que a minha mãe a colocasse no copo para, a seu tempo, subir à superfície da água e dizer que é hora de botar o pão no forno.

Mini pizza quase crua do colégio. Um pedacinho de resistência. Uma impossibilidade.

A melancolia eu tenho. Está aqui, agora, toda possível desde domingo à noite, quando tudo se queimou. E eu parei de ler. Presa dentro de uma bolha.

Só que sem. Sem a minipizza de massa crua da escola.

***

Ensinei a minha filha a usar a expressão bela bosta, assim podemos fazer comentários vários. É mais gostoso falar bela bosta do que grande coisa, por exemplo. Ela aprendeu tão bem que outro  dia melhorou: “às vezes, a vida é mega hiper bosta”. Eu deveria ter dito que outras vezes não, mas só pude concordar.

Bela bosta, você deve ter pensado, se chegou até aqui. Desculpa. Mas preciso te dizer que, de modo geral, é isso mesmo.

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