Se o telefone não tocar, sou eu

Peggy on the phone: qualquer coisa eu não te ligo

Peggy ao telefone: qualquer coisa eu não te ligo

Eu estava na rua e vi o mensageiro brilhar. Vamos falar por telefone, ela escreveu. Não posso. Por que? Eu não falo por telefone. Ahn? É isso.

Exceto a trabalho, eu jamais falo ao telefone. Exceto em caso de medidas extremas, como ter de marcar uma hora, eu jamais falo ao telefone. Dentista? Ok. Fora isso, eu só sou pessoalmente e por escrito. Na intimidade da palavra o telefone me perturba. Desaprendi. Sinto aflição.

Vamos falar.

Não. Não sei. Vou ver. Qualquer coisa eu te aviso ligo.

Tirei os sapatos, entrei em casa, larguei a bolsa, lavei as mãos, bebi água e me joguei. Na poltrona. Abri bem devagar a embalagem de um livro novo. Fiz aquelas coisas que eu faço, fingindo que não e, no fundo, despetalando a flor da dúvida. Ligo, não, ligo, não, ligo, não. Qualquer coisa eu liguei.

Falamos por quarenta e três minutos. E não foi como se ela estivesse aqui. O maravilhamento era sabermos uma e outra tão longe e tão perto. Que invenção linda o telefone para falar com quem a gente ama, para deixar a voz entrar por um ouvido e percorrer um todo, para desentender o que o outro diz e pedir explicações, como assim, e dar risada e contar sonhos e apertar e folgar neurônios e falar dos medos e do que escapa e contar casos e causos e lembrar de umas fofocas e pedir para repetir e dizer espera um pouco que vou abrir a janela ou que horror meus cabelos hoje estão mais prateados do que ontem e desviar do espelho e olhar a poluição no horizonte e pensar que ela está olhando uma outra coisa totalmente diferente. Junto.

Desligamos. E eu senti em cada pedacinho do meu corpo uma energia que durou por horas. Uma excitação. Vontade de ler, de escrever e de fazer mais das coisas que eu gosto. Foi ótimo. À noite, estava quente. Eu bebi um vinho na calçada e ainda era em mim aquela conversa. Uma brisa. Não tive um treco, não morri. Falei. Demorou um pouco, que eu sou devagar para coisas rápidas e levo um tempinho para saber que eu já sei, mas entendi o que senti. Alegria. Estive feliz.

Estamos, muitos de nós e não todos, eu sei, perdendo o jeito de falar ao ouvido do outro e de deixar o outro falar ao nosso. É que banalizaram a conversa no ouvido quando começaram a nos invadir com a gravação de vendedor de telemarketing. Um horror.

Falar ao ouvido do outro é muito perto e profundo e importante. Eu achei que não voltaria para esse lugar e, escuta só, voltei. O problema é que, agora, menos ainda vou tolerar os discursos robotizados e nunca, nunca, nunca vou perdoar quem liga e fica mastigando. Essas coisas abestadas ofendem o sentido de falar e escutar ao telefone — que é uma coisa que só se faz com quem nos importamos muito e não se mastiga na orelha de quem a gente gosta. Mas isso é outra história. Misofonia.

Se liguem. The oldfashioned way.

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