Quanto é quando

Quantos livros você está lendo ao mesmo tempo, ele perguntou. Cinco?

Muito mais.

Deu para ver em sua cara anormalmente insondável (e muitas vezes por isso irritante), familiarmente impassível imperturbável (exceto por contraditórias e expressivas erguidas de sobrancelha que não) dizem tudo), que achava aquilo muito possível e bastante igual a não estar lendo nada. Bem simples.

Explico que romance eu só leio um. Sempre. Um por vez. Contos, ensaios, relatos de viagem e diários (e alguma poesia)? Tantos.

Um conto passa quando eu pedalo uma bicicleta imaginária.

Atravesso parágrafos do ensaio carregando um peso em cada braço.

Leio uma história deitada em algum lugar macio, quase imóvel não fosse a leitura, no meio da tarde, no intervalo de uma varrição de células de Excel. É quando a luz que entra dá a impressão de uma tenda ao sol. Uma sombra artificial entre as tarefas iluminadas demais pela luz fria do computador.

Como?

Um conto russo entre cinco estações, por exemplo. Só existem quatro, ele ia dizer. Calma. Cinco estações de metrô e poderia ser um conto por ano em outra marcação de tempo.

Dá para ler muita coisa assim. É necessário, para mim. Abro o livro e enfio a cara dentro dele como quem abre a janela para o ar passar. É um lugar-comum excelente quando se tem dificuldade com os modos de estar no mundo.

Romance, porém, só um. É O Alforje agora, por falar em deserto.

Corri o dedo pela tela do celular, ponto de distração, e apareceu esse post sobre um dos livros da minha mesa de escrever ou talvez esteja entre os empilhados para que eu possa esbarrar neles e lembrar e pegar. Não estava abandonado, só esperando.

Leio entre fatias muito finas de queijo e salame e um pouco de café da meia-noite que uma amiga trouxe do futuro para “te inspirar”.

É lindo como o nome. Leiam entre uma coisa e outra: ‘Tremoços-de-flor-azul’ (Lucia Berlin, Manual da Faxineira).

Aniagem, macadame, jirau. Muito agradecido. Chá com bule, açucareiro e cremeira. Beijo de jumento. Ausência de barulho.

Romance, só um mesmo.
Estou lendo O Alforje, falei? Para ler estrelas no deserto e personagens assombrados. Fabuloso. No mais, uns muitos.

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