Manteiga no bolo quente

Bolo de nada cheio de motivos: quente e com manteiga; frio no dia seguinte. O gosto acomodado

De manhã cedo, não li os jornais, não trabalhei, não ouvi as notícias. Coei o café e, enquanto filtrava, eu não vi os emails, não peguei a correspondência, não liguei o forno, não enchi a lavadora, não cobri a mesa com a toalha, não tirei a manteiga da geladeira e não falei. Nada. Só fiquei olhando para o café até o fim.

Depois, bebi. E quase queimei a língua. E comi dois pedaços do bolo que eu fiz ontem. E abri a janela para perceber o ar frio que não é vento, que cobre a pele sem se mover e que precisa ser puxado para dentro pela respiração. Está úmido e muito bom.

Lembrei que tentei misturar na mão e não deu certo. Quando juntei a farinha, enfarinhada fiquei eu. E a pia. E o fogão. E o celular com a receita que a minha mãe mandou. O forno esquentou mais do que devia, porque eu me distraí ao incorporar o fermento e assistindo a respiração da massa, coisa que nenhuma receita recomenda, só para ver o movimento das bolhas e imaginar que de dentro daquela manta brilhante e macia brotavam sentimentos, conflitos, angústias e desejos. Vontade de ir embora. A química mais trivial: umas raivas.

A beleza triste da massa crua – que fermenta sobre a pia, no esquecimento da cozinheira – parece a beleza (quase litorânea) dos dias nublados e úmidos, quem sabe chuvosos, vistos da janela do apartamento.

Para fazer um bolo sem motivo, que é diferente de desmotivado, que é distinto, eu sujei a batedeira, o liquidificador e duas tigelas transparentes. E o meu cabelo. E sujei também uma porção de imaginárias besteiras (e outras menos imaginárias), nas quais não conseguia parar de pensar nem mesmo depois do choque daquela gema brilhante e alaranjada em um potinho de porcelana de fundo azul e chinês.

Pensei, por exemplo, em um dia que imagino nublado e úmido no Caribe, quando o mar inchado carregou o afogado mais bonito do mundo para transformar e percepção de mulheres e homens em um vilarejo de um conto mágico de Gabriel García Márquez – pensei muito nesse tal de Estevão desproporcional nas medidas e nos silêncios e em sua comovente dificuldade de caber no mundo dos sonhos. E pensei, por exemplo, em outra coisa enorme: um arrependimento que continua potente na elevação dos pelos do meu braço e do resto do corpo. Pensei no apagamento da expectativa. No “e se” e nas coisas que eu deixei de escrever.

E pensei ainda que em duas situações o bolinho de nada é tudo e expressa a tranquilidade inexistente e conveniente. E soube que eu estaria lá. Primeiro, para comer o bolo sem motivo (só ovos, farinha, leite, açúcar), quente e com manteiga. Quando assim, ele não tem nada de bobinho. Depois, para comer pedaços frios, no dia seguinte e logo cedo, o sabor acomodado, dormido, penetrado de silêncio e algum barulhinho esparso e cheio de possibilidades na madrugada. Um bolo, digamos, menos ansioso para agradar. E nem por isso modesto. Gostoso.

Bolo que para virar de chuva só precisa de mais um ponto e pingar no óleo. Bolo que para virar panqueca só precisa de mais um ponto e de duas conchas e cobrir a frigideira.

Não sou obrigada a escrever isso, mas digo assim mesmo: é funcional o bolo esperto.

Agora, cuidado. Se você só ficar olhando, o café vai esfriar. Tem mensagem para escrever, trabalho para fazer, louça para lavar. E ainda não acabou. O bolo.

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