Um modo de usar a vida

Peguei o pote de vidro. Hermético. Estava cheio de molho de tomate. Abri. Intenso, aveludado. Perfume certo, fundo adocicado que não estava ali, qualquer coisa que melhora quando a gente toma distância, esquece que existe e reaproxima, ao acaso, depois de um tempo.

Enfiei a colher. Frio, encorpado. Tão bom que eu quase bebi feito sopa. Queria engolir tudo, mas não. Por causa desse aroma e desse gosto, em dois segundos lembrei do dia em que eu, sem saber, fiz para sobrar. Para sobrar e para reencontrar inesperadamente em uma sexta assim, como se a gente estivesse se esbarrando no cruzamento do improvável com o difícil. Um dia raro, portanto, e reflexivo e de gestos silenciosos e em que se ausentam respeitosamente os barulhos mais ordinários. Nenhuma máquina, nenhum aparelho. Dá para passar um tempo contando os aviões lá fora. Hoje tem trânsito acima das nossas cabeças.

Sexta de sono contido. A gente dorme tão bem que nem sabe onde está quando não desperta: há uma leve, muito, muito, muito leve ressaquinha de Martini, indicando cuidado. Dois ou três trabalhos estão encaminhados. No banho, umas ideias estranhas escorrem para o ralo, outras se ajeitam e há as que só surgem ao enxugar vigorosamente os cabelos na toalha.

É um molho que precisa ser achado em uma sexta-feira assim. Há um não-saber permitido e a pessoa está dentro de um roupão-quimono de flores vermelhas no fundo preto e tecido acetinado do tipo “tem para morar?”.

Fazer e sobrar um molho bem demorado é um modo de usar a vida. Muito importante guardar fundo, atrás das coisas corriqueiras e dentro daquele lugar que a gente finge que não vê até se espantar e se agradar, dias depois, quando parecia que não tinha nada e o sugo é tudo de melhor e mostra que tinha algo, sim. Algo que melhora na redescoberta da história condimentada.

Tem de surpreender o molho em uma última sexta de não-férias, uma sexta de ressaquinha leve e roupão-quimono acetinado do tipo “tem para morar?”.

Grana padano, pimenta-preta. Um prato de macarrão depois e pode terminar de se montar e sair para enfrentar o dia. Agora você consegue. Vai.

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