Entre nós outra vez um dia

Na página 201 do livro, no capítulo que pretende tratar do significado da “Sala de Jantar”, o autor descreve a trajetória de alguns ingredientes. Surgiam por exemplo na Inglaterra do século 17 as primeiras cafeterias. Só que, como naquele tempo e lugar a bebida ainda era pouco compreendida, ruim, armazenada em galões por dias, possivelmente o que levava pessoas para lá era menos o beber e mais o estar (para saber do mundo ou fazer fofoca). A cafeteria, lembra o escritor, tinha a função social de um lubrificante. Ele recorreu à expressão “lubrificante social”. O autor (do livro, não da expressão) é Bill Bryson. Em casa – uma breve história da vida doméstica.

Daqui a alguns anos, se existir quem escave o passado para entender como chegamos a lugar nenhum, um outro historiador do futuro (não sei adivinhar se homem ou mulher) vai se meter em um lugar em que escolheu viver  ou simplesmente em um lugar possível , na tentativa de atribuir sentido ao que estamos fazendo com os nossos dias. No fundo e acima de tudo desejará, antes, durante e no fim das contas, saber de si (se cumprirá o prazo, se a filha se orgulhará, se haverá contentamento e dinheiro bastante…).

Longe, sozinho, desconectado e humano, o historiador do futuro pisa um papel antigo preso na tábua do assoalho, um assoalho que não deixa o tempo acomodar, que fica remoendo a dor da árvore à noite, sabe como é, gemendo e, principalmente, soprando resíduos de conversas velhas dos que um dia estiveram ali.

Pega do bule um pouco de dignidade líquida e escreve que houve um tempo em que muitos dos indivíduos que contavam os dias na redução da pilha do coador de café teriam vivido aos atropelos. Mesmo quando para fora, na rua, na praia e na praça, eles estariam presos em roupas muito apertadas e agiriam de um jeito estranho como se fosse natural.

Exageraram. E viveram todos ofegantes e contidos e assustados para sempre. Ora cuidadosos, ora estabanados. Ora desculpando-se pela existência, ora dizendo que tudo podiam. Esforçavam-se para parecer alegres. Mas, no fim, vejam só, alguém no meio da confusão teria escrito à mão o desconforto. Talvez estivesse a fim de se aliviar. Rasgou e largou. O bilhete pisado muito se lixava no chão. Com a poeira nas palavras, era na verdade um arrepio:

Me movo entre nós, como se fosse natural. Nós apertados. Nós, apartados.

Na opinião do historiador do futuro, acho, aquele tempo do bilhete tinha como ‘lubrificante social’ as redes que juntavam em si uma porção de nuvens de palavras. Era lá que as pessoas atadas a anseios, desconfiadas, iam confirmar e afirmar e não saber (ou sim). Talvez um dia ele conte em seus escritos que houve uma fase em que muitos restaurantes esvaziaram até fechar, porque neles deixou de circular a energia das palavras e das experiências espontâneas – tão enviadas que haviam sido, todas elas, para as nuvens. Alguns bares resistiram ao encorajar conversas encharcadas. Na feira-livre, quem ainda ia e vinha o fazia silenciosamente, talvez pela última vez, manifestando desejo de compra na ponta do smartphone. Tudo era aplicativo. Mercado, farmácia e sentimento.

Ninguém e todo mundo sabiam ao certo da textura ou do destino das palavras e das imagens e das escolhas, porque de tão cismados em convencer e ser convencidos de que existiam, só deslizavam para dentro e fora das telas retroalimentando expectativas e afagos superficiais. Gastavam o tempo com algo que facilitasse o trânsito entre os nós espaços difíceis de ocupar: aceitação e aprovação. Geral e impossível.

Ao sair pelos teclados ou passar por alguma linha do tempo, eles [os nós] logo olhavam para o outro lado à procura de uma próxima notificação que não lhes mudasse a vida ou de qualquer coisa para não ter de agir a respeito da roupa figurativamente colada ao corpo, das cabeças inclinadas, da falta de vontade, da vontade em excesso, dos ombros curvados, do desejo frustrado, do ressentimento, das fissuras no perfil do outro. Se falassem sobre um desconforto, ele existiria. Se não compartilhassem a fotografia de um momento supostamente bom, ele desapareceria.

Se iam, se ficavam, comiam, liam ou compravam, portanto, era preciso avisar (mesmo se não fosse bem assim). Avisar cronicamente. Geralmente as dores eram editadas, mas surgiam aqui e ali para o prazer conforto dos que perceberiam, como se fosse a primeira vez, que afinal todos sofrem e não é pessoal.

A sociedade que supostamente teria dado supercerto nos aplicativos e nos braços que continuavam em smartphones na verdade desapareceu em alguma atualização compulsória de sistema operacional. Quem estivesse lendo a respeito já estaria livre disso. Só conheceria por fotos. Como muitos que já nascem sem o dente do siso, estes viveriam sua vidinha deliciosamente ordinária. Sem app.

***

Anos depois, portanto, ao erguer a cabeça do livro encadernado do tal historiador do futuro, um tanto aflita e inconformada com aquela obsessão de um outro tempo, uma leitora vê chegar uma mulher sem conexões, que anda sozinha, leve e sem postar.

Ela teria caminhado até ali de mãos vazias e roupas largas, gostosas, olhando em frente, para os lados e para cima, sentindo o que sentem os que se movem pelo mundo: vento, sol, coceira, espanto, indiferença, admiração, indecisão ao atravessar a rua. Aquele cachorro morde? Aquela criança está triste? Aquela menina tem coragem? Curiosidade pelo teatro de sombras encenado na varanda envidraçada de uma casa térrea; atrás do vidro fosco, o que dizem as formas difusas? Isso tudo além de alguma secura na garganta, narinas ardidas e uma enorme satisfação ao chegar.

Entrou no café, porque queria parar de arranhar as pernas com as unhas e comer um docinho. Lavou as mãos, olhou ao redor e pediu pela cocada branca que parecia bastante açucarada e úmida. Água na boca.

Enquanto mordia, gostava de estar certa: açucarada. E úmida. Gostava também do vestido florido e soltinho de uma moça. Era uma admiração invisível, impalpável e inteira  pelo vestido e pelo saber estar dentro dele. Viu melhor: não eram flores que envolviam a menina. Eram letras.

O sorriso largo e franco de um sujeito moreno ela desejou para si, meio que sem saber e sem pensar. Deu uma mordida maior na cocada e segurou-a na boca para que o instante durasse um pouco mais. Depois engoliu outra admiração invisível, impalpável e inteira.

Foi então que a tal leitora que a viu chegar cinco parágrafos atrás se ergueu para buscar um copo de água, abandonando o livro do historiador do futuro. Seu gesto virou uma página e apareceu a epígrafe que a mulher que comeu o doce poderia ler, se quisesse. Sobre a mesa, sobremesa. Era uma epígrafe sobre mesas.

A mesa, redonda ou quadrada, oval. Elemento básico de tangência e contaminação. Suporte conjuntivo ou adversativo da tribo. Festa fundamental; infesta às vezes. (Murilo Mendes)

Quando a dona do livro voltou, a cocada já era. O moço do sorriso tinha ido embora e a menina do vestido também. Sobrou o vestígio das imagens e das palavras.

A mulher, solta, apoiada no balcão, pediu o café pensando no fundamental da festa infesta à mesa. Era certo o café – extraído de certo grão de certa origem e escolhido por certos atributos. Torrado e moído para não fazer sofrer ou ruir a estrutura dos pensamentos, provavelmente continha algum controle de ressentimento. Um pouco de açúcar orgânico injetado sem traumatizar o grão? Tentativa (incerta) de não permitir manifestação de rancor? Talvez. Há essa onda de precisão, de impacto de perfeição.

A água dos outros pedidos escorria para dentro de algum bule ou xícara, uma transformação habitual, um barulho reconfortante.

No futuro, imaginou a mulher, alguém escreveria sobre o que ela viveu, bebeu, comeu e quis. Seria a harmonia que experimentou, no paladar, nos gestos, no que viu a caminho e na loja, uma expressão de algorítimo? Observou seus braços longos, as unhas curtas, os anéis. Passou a ponta dos dedos nos lábios e quis acreditar que, fosse o que fosse, era uma fortuna cada boca receber o café certo, corrigido, gostoso, personalizado e dirigido ao gosto e à prova de qualquer desejo de postagem.

Postagem? É. Ninguém mais fazia isso ou tinha um smartphone nas mãos até se não houvesse mão. Não. Postar nada, nem a mais sincera epifania. Nos proteger dos nós. Agora era assim. Não se sabe quem foi que mandou ou quando, só que o conceito era, este sim, reconhecidamente injetado no grão especial de origem e torra perfeita com o consentimento geral dos que sem ele não conseguiriam resistir (o incremento de doçura parece que, se existisse, era clandestino mesmo). Onde há um cheiro e um gosto tão bom não deve haver nada de perverso. É o que ela achava, mesmo com um desejo a menos.

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