O que eu ia fazer

“Agora, é claro, há dezenas de outras perguntas clamando para ser feitas: sobre igrejas e parlamentos e bares e lojas e alto-falantes e homens e mulheres; mas infelizmente o tempo se esgotou; cai o silêncio.” (Virgina Woolf no ensaio “Por quê?”, maio de 1934)

No espaço de tempo que surge entre os temperos e eu – entre olhar, escolher, pegar e usar –, aplica-se a interrogação. A pergunta também se manifesta quando estou na frente do fogão olhando para a água que ferve na espera. Vazia de coisas e cheia de si, ela quer se derramar sobre pó de café, tingir o bule, erguer o chá. Quer extrair, cozinhar, engolir, transformar. A água sabe de seus propósitos e possibilidades, acho. Já eu, se estou diante de uma porta fechada ou da geladeira aberta, não. Sempre a mesma questão se infiltra nos gestos repetidos e fingidamente decididos: o que estou fazendo aqui afinal ou, variável igualmente devastadora, o que eu ia fazer. O que?

Demoro o olhar na folha de louro, na chave pendurada no gancho da parede, na página em branco, na faca preferida, na gaveta, no semáforo verde. Uma próxima ação parada no ar. Dura um átimo eterno: o que eu vim fazer?

Sou o John Travolta no gif perdido de Pulp Fiction. O Woody Allen no gif que é um achado (a cena do desfile da banda, do assaltante trapalhão. Ele tenta sentar para tocar o instrumento (inadequado para aquela ocasião), o conjunto avança e ele vai puxando a cadeira para acompanhar).

Sim, eu não sei o que eu vim fazer (e às vezes finjo que sei e simplesmente faço) ou, quando acho que sei, também faço. Errado.

***

(A cena é do “Take the money and run”. Não encontrei o gif para colar aqui. Onde vivem os gifs?)

***

Há uma carta de e-mail não enviada, que abandonei depois de vencer a metade mais fácil – possivelmente o pedaço que eu vou apagar para em seu lugar escrever algo de que vou me arrepender. Ou não.

Os lugares são sempre outros e eu chego até eles, às vezes depois de muito esforço, e sei que esse chegar é um fim. Mas, no fundo, estou na frente do espelho e a pergunta é igual: o que estou fazendo aqui, o que eu ia fazer?

Tem gente perseguida por outras indagações. Quanto custa, quanto tempo, com que roupa. Tantos quandos e porquês. E há quem viva supostamente e tranquilamente na base do quem sabe. Eu me incomodo no não sei o quê. Não sei o que é que eu ia fazer.

Estava indo, vim e no trajeto achei uma fresta e fiz o que precisava ser feito: amanheci, outra vez, e confortei-me com o café doado e a manteiga e o açúcar no pão quentinho. Até a próxima pergunta de sempre surgir.

 

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s