A melhor hora de todos os dias

Todos os dias eu acordo para ler antes de a casa despertar. A realidade, sabemos, atrapalha esses instantes que se parecem com manhãs de domingo. Faço café sem açúcar; esquento pão com manteiga. Não me canso de achar bonito o brilho dos cristais de açúcar que espalho sobre o dourado da fatia ainda quente. Aquele som invisível de estourar pequenas bolhas de gordura com a chuva doce é manifestação da melhor hora. Ela pode durar mais minutos ou menos. Depende. Do dia.

Assim como todos os filhos são únicos, mesmo os que têm irmãos, há esses momentos de matemática ímpar, de silêncio balsâmico, de pegar o tempo no ar e não deixar que nem a mais ordinária idiota exigência do cotidiano o contamine. É assim, para mim, viver o que eu chamo de “a manhãzinha sozinha”, que não tem nada de diminutivo. É imensa em seu lugar. É como sentir no rosto o ar frio que veio da madrugada lá pelas sete e meia. Você sabe? Saia por aí caminhando no sentido do despertar. Ele, o ar frio, vem e te atravessa. Conforto de oportunidade.

Já foi a melhor hora do dia de hoje. E eu li, quase terminei, só que achei que precisava parar quando senti calor.

***

Em meu aniversário, há poucos dias, ganhei um livro que até então nas prateleiras e nos recortes de jornal me parecia interessante principalmente pelo que diziam da mulher que o escreveu. Eu de fato desconhecia do que falavam as palavras contidas no incontido dele. E como eu precisava mais do que parecer para ter, nunca o peguei na mão nem para ver a quarta capa. Talvez devesse ser precisamente assim: quando chegou a mim, eu li em voz alta:  “…porque a escrita é um fazer mudo, um trabalho da cabeça na mão…”.

Desembalado, desprenderam-se de seus cadernos a expressão dos sentidos. Acho bom que a Amazon entregue os livros plastificados, é como se o gosto ficasse mais potente e concentrado. Além disso, é lindo e maravilhoso que os amigos adivinhem, nos livros e nas pessoas, suas possibilidades de conexão.

O nome do livro é Sempre a mesma neve e sempre o mesmo tio, coletânea de ensaios de Herta Müller. No texto que tem o título, ela diz:

“Não confio na língua. Sei por experiência própria que ela, para se tornar precisa, deve sempre tomar algo que não lhe pertence. Não sei por que figuras de linguagem são tão diabólicas, por que a comparação mais válida furta qualidades que não lhe pertencem. Apenas por meio da invenção surge a surpresa, e está provado o tempo todo que a proximidade à realidade só começa com a surpresa inventada na frase. Apenas quando uma percepção saqueia a outra, um objeto arranca para si o material do outro e o usa — apenas quando aquilo que é impossível no real se torna plausível na frase — é que a frase pode se afirmar diante da realidade como uma realidade própria, como se estivesse à mercê das palavras, mas de palavras válidas.”

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