A mulher sem qualidades: parte 1

“Do que eu falo quando eu não falo de comida.”

Pode ser sábado à noite quando tudo parece complicado e para melhorar não dá para fazer nada até o próximo dia supostamente útil. Sobra e falta sentido, instala-se no espírito um desconforto. Para encontrar alívio, recomenda-se uma porção de tudo certo e nada resolvido.

Entrei no quarto pela última vez depois do banho. Não saí mais. Usava um pijama preferido, calça de flanela, camiseta de camisola azul. Tudo muito macio. Confirmei, sem assombro, que minha cama continuava a pender para o lado em que eu durmo. O ambiente é torto, na verdade. Ele tomba à esquerda de quem entra, à direita de quem sai.

A inclinação existe e não é por culpa de engenharia equivocada. Trata-se de um caso clássico de criado-falante, o móvel sobrecarregado de livros, como meu peito está enterrado sob um amontoado de vontades e anseios; dúvidas e dívidas, de natureza variada. Criado-falante e peito são ao mesmo tempo atormentados e acalentados por uma seleção aparentemente desconexa de setenta livros, entre lidos, por ler, vou ler um dia, queria ter escrito, presentes dos quais a mensagem contida no gesto eu ainda tento compreender. E abandonados. Outra categoria importante é a do fica melhor aqui do que em qualquer outro lugar do mundo.

Nenhum desses livros me servia naquela noite que rapidamente tentava avançar na direção de um dia novo e, como eu não conseguia dormir e no fundo sentia uma fome de fuga que resolvi domesticar, da sempre ordenada e limpa cabeceira ao lado peguei um catatau. Contraria minha vontade usar essa palavra que, para mim, sempre terá significado de homem pequeno, no sentido de baixinho e não de menor. Só faço isso para não repetir o substantivo a que Houaiss atribui, entre outras definições, “coleção de folhas de papel, impressas ou não, cortadas, dobradas e reunidas em cadernos cujos dorsos são unidos por meio de cola, costura etc., formando um volume que se recobre com capa resistente”. 

É, portanto, uma digressão, um catatau azul de proporções agigantadas, o que estou lendo desde então e talvez vá ler pelo resto da vida, porque são 1240 páginas em um volume só e eu realmente espero que boas notícias cheguem e roubem de mim algumas horas e ajudem a drenar aquele desconforto de que falei no início. Tarefas divididas.

Trazer para o meu lado “O Homem Sem Qualidades” fez com que o quarto se inclinasse ainda mais, senti leve vertigem e logo me acomodei: me abismo em mim, mas não caio para fora da cama.

Ou seja, eu fui até ali zombar dos limites e fingir que acredito que sempre posso dar um jeito. Lembro do dia em que o homem (sem qualidades) veio para casa. Se os editores realmente se importassem com gente como eu, desqualificada em tantos sentidos e que gosta de levar o que lê para onde vai, bem, eles teriam fatiado essa obra de dois quilos e 1240 páginas em vários volumes. Robert Musil, o autor, deixou o texto inacabado em três livros. Acredito que ele sabia o que estava fazendo. Repartir o objeto facilita a jornada pelo texto que precisamos percorrer e que desejamos nos percorra também. Em alguns casos, é melhor assim.

Comecei forçando os olhos na contracapa. De cara, a luz difusa e o meu astigmatismo mióptico – sempre acho que o médico inventou essa doença, porque eu, geminiana até no mais profundo dos olhos, não conseguia durante o exame me decidir pela melhor lente para ver o mundo e jamais aquela consulta terminaria – foram desafiados por uma fonte feia, cujo nome desconheço, impressa em tinta azul. Quase impossível de ler o seguinte, mas consegui:

“O grosseiro se suavizava, o separado se reunia, independentes faziam concessões, o gosto já formado sofria de inseguranças. As fronteiras nítidas se borravam, e uma nova capacidade indescritível de se agrupar produziu novas pessoas e novas concepções. Não eram ruins, certamente não: havia apenas um pouco de ruindade demais misturada ao que era bom, engano demais na verdade, flexibilidade demais nos significados. […} Falta ao mesmo tempo tudo e nada: é como se o ar, ou o sangue, tivesse mudado: uma doença misteriosa devorou a pequena genialidade dos velhos tempos, mas tudo cintila de novidade, e por fim não se sabe mais se o mundo realmente ficou pior ou se apenas nós ficamos mais velhos. Então, definitivamente, chegou uma nova era.”

Na tentativa de terminar, um dia, o que comecei naquela noite, desafiada pela anatomia do objeto e pelo que seu texto até agora diz no papel e em mim, começo a anotar sem muita qualidade ou método minha leitura de “Um Homem Sem Qualidades”. Estou na página 37 e Ulrich conhece e aflige Bonadeia, uma nova amante.

Ulrich é uma pessoa com senso de possibilidade. Assim são as pessoas que nas palavras do narrador “vivem, como se diz, numa teia mais sutil, feita de nevoeiro, fantasia, devaneio e condicionais; crianças com essa tendência são educadas para se libertarem dela, e lhes dizemos que tais pessoas são utopistas, sonhadores, fracos, presunçosos ou críticos mesquinhos.”

Eu, mulher em momento de pouca qualidade em termos de possibilidade, em fuga da realidade excessiva dos dias iluminados pela luz artificial e cruel do elevador, comecei a ler.

 

Um pensamento sobre “A mulher sem qualidades: parte 1

  1. Pingback: A mulher sem qualidades: parte 2 – Do que eu falo quando eu falo de comida

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s