Um refrigerante e um amor

Cascos de Coca-Cola

Bebendo um dia

Hoje no almoço eu fiz macarrão em molho branco. Os filés de coxa de frango (orgânico, analisado com passagem pelo divã, carne forte) foram empanados em biju/beiju de mandioca com azeite, bem temperadinhos. Quando botei os pratos, achei o perfume muito bom e a mesa bonita e, sem mais nem porquê, perguntei se a menina topava mear a última garrafinha de refrigerante. Aquela que, na porta da geladeira, angustiava há meses, despedindo-se dos outros cinco cascos que partiram antes, lentamente.

A menina hesitou. Não duvidava do próprio desejo, eu sei. Adoramos esse refrigerante. Às vezes passam pelo refrigerador pequenos grupos de garrafinhas bonitas, de vidro, dessas que a gente transforma em vaso de flor. A temporada começa, em geral, na visita de um nosso amigo que gosta da bebida. É para ele, dizemos uma para a outra e solenemente colocamos a caixa no carrinho, sem querer pensar que nos vemos menos do que gostaríamos e que quase nunca lembramos delas. Ficam à espera, trocando de lugar a cada limpeza, testemunhando o frenético entra e sai de águas com gás.

Levam um susto a cada vez que a porta se abre. Os primeiros dias são como folhas arrancadas de um calendário cada vez mais frio e, por fim, músculos do coração bem treinados, só resta um suspiro. Tchau, água, água, água. Outra água. Nunca eu.

Nas festas, o beber de refrigerante é livre, a menina sabe. Mas é tanta distração que ninguém liga muito e assim vamos cultivando um amor distante, presente, porém tranquilo. Sem muito sofrimento e com prazer bem sentido a cada gole.

Ou seja, a hesitação desconfiada dela era só para ganhar algum tempo na tentativa de entender o que estava acontecendo de verdade e, junto disso, botar ordem na revoada de borboletas em sua barriguinha. Que dia é hoje, por que vamos fazer uma coisa dessas, o que estamos celebrando. Como assim, mamãe…?

Não é nada, meu bem. Só deu vontade de melhorar um pouco a vida antes de sair. Fazer alguma coisa gostosa, especial e diferente. O que você acha? Ah, mãe, a minha vida é boa todos os dias (ouch, engole o choro e finge, esfinge). Mas, tudo bem, eu faço companhia para você. Vamos.

Abri a garrafa, derramei um pouco de refrigerante nos copos e comecei a comer. Ela me seguiu. Uma chuvinha de grana padano aqui, outra ali. Quer um pouco de pimenta-do-reino, pergunto, só para ouvir ela dizer que sim, que pode moer e agora está bom, obrigada, gosto do cheiro. E juntas vamos reduzindo as porções até quase a metade. Ela me observa, respira devagar e profundamente, e continua a repetir meus movimentos.

Demoro a perceber que existe uma cerimônia quase tensa e incomum em seus gestos. Então eu limpo a boca e aproximo a mão do meu copo. Os olhos enormes indagam e, ao mesmo tempo, afirmam. É a hora. As mãos pequenas se preparam para pegar o outro. Se fosse ficção, ela seria aquela pessoa que tanto esperou estar ali e de repente se vê inadequada e, ao mesmo tempo, no lugar em que sempre quis estar. Um convidado trapalhão desajeitado em sua timidez e que, na dúvida, segue o anfitrião. Segurou a bebida, sentindo-se autorizada, talvez, os olhos nos meus e a boca no copo. Bebi também, paramos juntas.

Ela disse que nossa, mãe, e olha que hoje ainda é quarta, na saída da escola tem pipoca com queijo… É muito especial, mesmo. Depois segurou, com a delicadeza de quem bebe um dia, o esperado soluço.

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