Sensação de coisa mínima

Cena de Minúsculos: no mundo dos pequeninos

A sétima reimpressão do Livro do Desassossego – Composto por Bernardo Soares, ajudante de guarda-livros na cidade de Lisboa foi publicada no Brasil pelo selo Companhia de Bolso (2006). Ela contém textos de Fernando Pessoa organizados por Richard Zenith, tradutor e crítico literário. Em Milímetros, na página 464, o autor escreve sobre a sensação das coisas mínimas.

“Mas são só as sensações mínimas, e de coisas pequeniníssimas, é que eu vivo intensamente. Será pelo meu amor ao fútil que isto me acontece. Pode ser que seja pelo meu escrúpulo no detalhe. Mas creio mais (…) que é porque o mínimo, por não ter absolutamente importância nenhuma social ou prática, tem, pela mera ausência disso, uma independência absoluta de associações sujas com a realidade. O mínimo sabe-me irreal. (…) Quanto não me provoca na alma de sonhos e amorosas delícias a mera existência insignificante dum alfinete pregado numa fita!”

Achei dois desses “alfinetes pregados em uma fita” quando a gente almoçava no quintal. A mãe havia feito uma caldeirada de mariscos comprados no mercado de Bertioga. O primeiro alfinete espetou-me o pensamento assim que mordi um mexilhão gordo, vermelho. Ao romper da pele, abriu-se uma eclusa e o gosto invadiu a boca, oceânico. O outro alfinete foi a pimenta biquinho que ardia sem arder, pequenez adorável, provocação afirmativa de que a vida, no espocar das coisas, pode ser muito gostosa — mesmo se eu andar por aí chutando o pé da cama ou sendo perseguida por ele. A melhor vingança é não chutar, mas não resisto.

***

Quando Fernando Pessoa escreve que “benditos sejam os instantes, os milímetros”, eu penso no sabor contido nas pequenas coisas. Sensação de coisa mínima é obter potência na suposta insignificância. Só que não é em toda insignificância que queremos nos demorar. Só nas de sensação aumentativa, as que nos dão muito em um átimo. Essas crescem nos adjetivos. Irreais, invisíveis e desimportantes.

Os livros de poucas páginas, por exemplo, são como bombons embalados à mão e encaixados um a um. Defendo-os sempre. Livros e chocolates. “Aqueles que deixam no peito uma sensação de completude, de ir até o fim.”

Existe potência, também, na brevidade dos olhares curtos entre desconhecidos que se engolem e nunca mais vão se ver daquela maneira. Com ela se alcança a cumplicidade quase sempre difícil de achar em uma vida inteira e que, ali, só é possível na invenção, na mentira. Muitos desconhecidos descobertos pelo conhecer dão defeito insuportável. Viveríamos nos desculpando por isso…

Pequeno não é banal. O bar de um só balcão. O restaurante de cardápio enxuto. O ouvido perto do copo para escutar as bolhas de água com. A espuma que vai se desmanchando entre os dedos do pé quando a onda volta ao mar. A colherzinha de café que a gente usa para roubar doce de leite. O curta-metragem. O episódio de 15 minutos da série de nome tão ruim que é bom, sobre o japonês que encontra seu samurai interior. Samurai. Gourmet.

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Outro filme, a animação Minúsculos, nos mostra o mundo pequeno do ponto de vista aumentado e, ao mesmo tempo, o poder contido na quase invisibilidade. É relativamente fácil esmagar um inseto, dar uma raquetada em alguém que lhe é querido. Dá para prendê-lo em uma cristaleira assombrada de reflexos. Na lata de lixo. Mas não dá para morder sua bunda quando estiver tomando sol de barriga para baixo, ao contrário do opressor agigantado que sempre pode ser mordido em modo vingança. E que estrago faz aquele beliscão.

Fábulas morais e disputas fora de proporção são vistas do lugar da formiga, da aranha, da joaninha desleal, de uma mosca deprimida. O tamanho das coisas é, de fato, bastante relativo.

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Em meu desejo de pensar mais sobre comidas pequenas, pergunto a amigas e amigos sobre alimentos compactos. Dizem que se lembram de ovas, physalis, tomatinho, uva, alcaparrão, pitanga, mirtilo. E daqueles gominhos que formam os gomos maiores, nas laranjas e nos limões e, em especial, da mais suculenta mexerica pokan. Gosto de apertá-los entre a língua e o céu da boa. Já os dentes eu uso para partir a jabuticaba. Dentro dela existe um tempo que insistimos em não ter, o tempo para deitar depois de comer, para aceitar que talvez nada aconteça. Tempo longo, espaço curto.

À parte dos naturalmente explosivos, minha amiga fala daquela época em que dentro do peito tudo era mato ou roça ou chão de terra. Das árvores pendiam confeitos de chocolate. Confete que chora multicolorido sobre o bolo que você não aguenta esperar esfriar para cobrir. Confete também espoca. Na bombonière dos bons cinemas (e de alguns ruins, talvez), há bolinhas recheadas de imitação de conhaque. Prefiro à pipoca.

Desculpe. Queria escrever pouco, pequeno, enxuto e compacto, e ainda assim dizer muito. Mas há esses dias em que eu só sei sobrar. Você espiou pela escotilha e provavelmente não sabia que ficaria, espero, enroscado nessa divagação até o fim.

Antes de ir embora precisamos falar das azeitonas bêbadas em um drinque bem montado. O ponto final é a deixa de outro começo. E eu quero mais alguns. Se você não for comer a sua azeitona, por favor, me avise. Eu quero.

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