Feijão gordo da vovozinha

Pela manhã, virando as páginas de Um Amor Incômodo, lembrei que esqueci de colocar o feijão preto de molho na véspera. Fiz como a minha avó ensinou: fervi, entre tarefas do cotidiano, trocando a água. Depois, deixei pegar pressão e cozinhar por uns quarenta minutos. Lume baixo. Possivelmente isso é um exemplo de como usar a tecnologia honesta a fim de obter resultado bem próximo de longo cozimento em fogo brando. Adoro pressão.

Perto do fim e em outra panela, refoguei no azeite um punhado de cebolas e, na transparência, juntei dois dentes de alho graúdos. Alhos de bom caráter. Partidos. Esmagados. Acrescentei moedas de linguiça portuguesa (fervida, fatiada, sem pele). Elas douraram no destampado. Deixei abafar e quase comi uma porção para reforçar o café da manhã — me contive e estou arrependida. Juntei tudo ao feijão e, para engrossar o caldo e dar sabor, esqueci.

Na panela da linguiça, preparei o arroz. Dependendo do que você quer da vida, usar o fundo cheio de história, sem lavar, é um gesto inteligente: derramei azeite e, outra vez, refoguei cebola até receber os alhos grandões e liberar o perfume da ilusão — sob o efeito desse aroma, quase todo mundo pensa que as coisas estão em seu lugar. É como ouvir aquele narrador da rádio Cultura FM, às 18h. Na onda sonora melancólica e bonita ele diz “fim de tarde cultura” e você imediatamente esquece da fuligem que o ônibus está jogando na sua cara, esquece que errou a faixa ficou presa entre os dois veículos agigantados e instantaneamente pensa que é rica, que o fim de tarde é outonal até no calor e… segue o jogo. As coisas devem estar milionárias (em outro lugar ou em outro tempo e com outra pessoa).

Deixei fritar o arroz. Cozinhou por 15 minutos e eu cobri a panela com um pano de prato bem limpo e bonito, fingindo que sabia o que estava fazendo e que aqui é lar doce lar.

Eu e a menina almoçamos (e jantamos) arroz com esse feijão gordo e gostoso. Nas duas vezes, repetimos.

Ela elogiou a refeição a seu modo, sem fazer média com a cozinheira: “Nossa, mãe, que comida boa. Foi você… ou a vovó? A vovó, né?”

Confesso que eu pensei a mesma coisa na primeira colherada (prato fundo, colher de sopa). Modestamente, fazia tempo que eu não comia algo que eu fiz, pensando que parecia ter saído da panela da mãe. Isso é mais do que gostar. Foi como romper um bloqueio, porque eu andava sem muito desejo, oscilante e errante. De certa forma, quem fez esse feijão fomos nós três. Nós desatamos os nós. Eu, a mãe, a vó. Nós quatro, talvez. Acho que não haveria caldeirão se a menina não existisse. Difícil dizer, porque ela parece estar presente na ausência das fotografias do tempo em que ainda não existia. Vai saber. Ou não vai.

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