O agora nunca é o bastante

“Como o presente é antiquíssimo, porque tudo, quando existiu foi presente, eu tenho para as coisas, porque pertencem ao presente, carinhos de antiquário (…)”
(Fernando Pessoa)

No supermercado, a moça pergunta se eu faço parte do programa da fidelidade do CPF, aquele dos descontos muito sutis. Profere um “pode digitar” automático e indiferente. Eu ainda estou tirando do carrinho as 17 garrafas de água, o arroz etc. Só falta a manteiga e pronto: é o primeiro milésimo de segundo do semáforo verde. Ela, como faz quem existe na pressa, buzina: pode confirmar, colocar o cartão e a senha, tirar o cartão, fazer o quatro com a perna esquerda, enrolar a língua, estalar os dedos dos pés e piscar o olho direito. Tento abrir a sacolinha para empacotar a garrafa de número 11: a funcionária já esfrega a nota fiscal no meu nariz e ordena que eu tenha um bom dia. Caixa livre!

Logo menos, vão cronometrar nosso tempo e associar à destreza ofertas especiais. Estarei perdida, porque sou lerda para o que é rápido e muitas vezes prefiro fazer uma coisa de cada vez.

O desafio da gincana é “anda logo”. Na fila do quilo, diante do pipoqueiro (com ou sem queijo? Grande ou pequena?), na cafeteria (para viagem? Com ou sem leite? Com açúcar?). Tem sempre alguém impaciente e sua resposta demora, mesmo se for rápida. Nas ruas ou na garagem do condomínio, muitos se movem como se tivessem a preferencial permanente da vida. Esquecem que sob a luz do elevador será difícil se esconder.

A culpa da indelicadeza é do tempo que voa. Insira um bocejo aqui e, para suportar esse sentimento de sempre em dívida que nos invade, essa sensação de ser errado, a única recomendação possível é de alguma forma perder a cabeça. Chamem a rainha. De copas.

***

O jogo começa cedo. Entre as crianças, por exemplo, o presente parece antigo quando na verdade ainda está quente no prato. Elas são o puro creme do mal posso esperar o que vem depois. Para a pasta ao molho de tomate com pedacinhos de bacon canadense ou pancetta há um queijo (tipo?) grana ralado na hora. Os avós estão dispostos ao que for preciso para que os netos sejam os mais felizes e comam tudinho. Talvez tenham açucarado o sugo, mas quem sabe da verdade se calará para sempre, com a boca cheia e o guardanapo sujo.

Se possível fosse, a vó arranjaria um inacreditável frango de sete coxas: uma para cada um dos guris que, com os lábios brilhando à pele gordurosa e tostadinha, não querem saber de peito. O fato é que no meio desse êxtase de cores dominicais e desejos realizados as crianças fazem o quê? Antes da primeira garfada, já indagam o que vem depois. Se e quantos e quando vão comer os doces, a que horas pegarão o iPad ou descerão para o pátio.

***

É isso. O agora nunca é o bastante. É esse o sabujo que nos aflige, o cão farejador de desacelerados — se na distopia de Fahrenheit 451, de Ray Bradbury, esses bichos mecânicos têm o olfato calibrado para encontrar quem ama os livros, aqui eu os imagino perseguindo os que não se apressam. Os que guardam o tempo.

Nas manhãzinhas de qualquer dia comum, os minutos correm atrás de nós. Logo depois de abrir as janelas, você, que trabalha boa parte do dia em casa, já começa a misturar água e azeite. Enquanto liga a máquina de escrever eletrônica, tira o feijão do molho e põe para cozinhar, observa a fumaça da xícara de café com leite e espuma. Queima a língua, morde o pão, limpa a boca, bebe água, lê algum texto inteiro e outros aos pedaços, escreve dois parágrafos (se saem dois, no caso, é um dia muito bom…). Ao chiar da panela de pressão, faz coisas na internet e um comentário à mesa, olha nos olhos, sorri, traça um plano mínimo, diz tchau, respira fundo, tenta se lembrar do que ia fazer ali, lembra, troca a louça com uma aflição de coelho incansavelmente branco, doido e preocupado.

***

A propósito dos nossos filhos e dos filhos dos outros, eu sempre achei de um aborrecimento enorme comentários ao estilo “Pena que cresce” e “Aproveita, essa fase passa rápido”. Aproveitar é correr para não perder? Sofrer? Filmar e publicar? Estar ali pelo tempo que durar? Talvez faltem imaginação e criatividade onde a ansiedade e a simpatia difusa se demoram. O aviso é desnecessário e agourento… “Isso vai acabar”, vaticina a voz. “O que vai acabar?”, pergunta o perplexo contente. “O contentamento, a atmosfera onírica.”

A menina está aprendendo a ler e a escrever. Houve um tempo (curto, claro), há alguns anos, em que achei que eu ia desaparecer. Ela começou a sair do berço e entrar no carro sem precisar de ajuda. Abria o armário para pegar o copo. A geladeira, para ver o mundo. Dizia “dá licença” antes de sair da mesa ou de abandonar meu peito para ir brincar. Não desapareci. Aumentei. Faço nada, saio de casa, vou trabalhar, ler, cozinhar, tentar flagrar um salto de crescimento dela ou pedir que me alcance a cerveja que guardei para essa noite de hambúrguer.

Agora ela lê em voz alta, lentamente, qualquer coisa sobre as quais pousarem seus olhos grandes e de cor indefinida. Os rótulos do shampoo e do vinho, as lombadas dos nossos livros (Se-nhor Lam-bert Sem-pé; O cor-ta-dor de jun-cos; Uma luz em meu ou-vi-do). Cada dia uma novidade e, desde sempre, um outro agora.

Ontem entrou sozinha na escola pela primeira vez. Eu a vi fazer todo o percurso, até sumir atrás de uma árvore, sem olhar para trás. Fui embora comovida, mas, uma esquina depois do idílio, adivinha? Senti o calor da respiração do sabujo e pensei que dali até a hora de voltar eu tinha de ver uma palestra, me esquivar de telefonemas indigestos, escrever cartas esperançosas, começar a mexer em programas de edição de áudio e apurar o caldo de vegetais da sopa de letrinhas que no jantar divino e maravilhoso por vir ia melhorar nosso vocabulário…

Uma esquina depois do idílio, portanto, eu já não estava mais ali.

Por que, afinal, o agora nunca é o bastante, mesmo quando a gente sabe que ele é presente, quente e tão mais do que suficiente para dar uma rima ridícula e cheia de verdades? Não sei.

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