Lugar de gente grande

A cozinha não é território essencialmente feminino e não é culpa ou mérito da figura da mãe se as crianças têm uma boa relação com a comida. Parece óbvio, né? É óbvio, mas há quem jogue contra. Achar que as mães são as únicas responsáveis por orientar as crianças a comer bem ou que a casa e a cozinha são territórios essencialmente femininos é sabotar e empobrecer as relações. E as experiências também. Esse “lugar” de contribuir, desde a infância, para que as pessoas tenham uma relação mais prazerosa e menos culpada com a comida, é um espaço de expressão do adulto, onde não cabe prerrogativa de gênero e sim o conceito de compartilhar: pai, mãe e toda a “gente grande” ao redor levam os pequenos pela mão. Igual a quase tudo na vida e na boa formação humana.

Na semana, o ministro da saúde Ricardo Barros apresentou um plano de metas do governo para reduzir a obesidade no país e, durante sua fala, associou a ocorrência da obesidade ao fato de que as mães não ficam mais em casa com seus filhos e esses por sua vez não aprendem a descascar alimentos. Com uma premissa genérica até correta (a de que é preciso descascar mais e desembalar menos), o ministro disse que, abre aspas, “hoje as mães não ficam em casa, e as crianças não têm oportunidade, como tinham antigamente, de acompanhar a mãe nas tarefas diárias de preparação dos alimentos. E vai ficando cada vez mais distante a capacidade de pegar um alimento natural e saber consumi-lo…”.

O presidente Michel Temer já havia dado, em discurso do Dia Internacional da Mulher, outra declaração machista: “Tenho absoluta convicção, até por formação familiar e por estar ao lado da Marcela [Temer], do quanto a mulher faz pela casa, pelo lar. Do que faz pelos filhos. E, se a sociedade de alguma maneira vai bem e os filhos crescem, é porque tiveram uma adequada formação em suas casas e, seguramente, isso quem faz não é o homem, é a mulher“.

Essas afirmações não ajudam em nada, porque, quando se fala de comida, se fala de prazer/alimentação/nutrição, mas muito também de formação humana. E formação (oferecer recursos e referências para que uma criança se torne a melhor pessoa que ela puder ser) não é, definitivamente, uma tarefa de gênero. E nem é só tarefa de pai e de mãe (…). Além disso, a cozinha não é um lugar “menor”; é importante anotar que, quando uma parte da sociedade se opõe às afirmações tidas como machistas, isso não se dá porque o “lugar” ofende. A vida doméstica, o cotidiano privado, não é “melhor” ou “pior” do que sair para o mundo e ir trabalhar “fora”. Se existir a alma das coisas, a cozinha é a alma da casa. Uma alma compartilhada quando não se vive só ou quando se recebe alguém. O que sobressai negativamente nas palavras ao vento, fora a barbaridade machista, é o papel imposto pelos discursos. A determinação do que e de quem supostamente nos define (a mãe espontânea e falível e que tem uma vida além de sua casa e dos seus filhos é avoada e sempre culpada; a que vive em função dos filhos, vigilante, que não erra nas contas nem nas escolhas e não deixa comer bala nunca é “exemplar”).

“Comida começa com mãe, e nosso relacionamento com a comida e com a mãe permanece estratégico, percorrendo o leque do gosto, do desgosto, do apetite, da náusea, da falta de apetite, e da velha e boa culpa. […]”

Penso que essa sentença da romancista irlandesa Edna O’Brien, em um texto chamado Fantasmas do paladar: recapturando os sabores da infância, é um modo muito mais honesto e real de falar de um dado da vida e que tem a ver com origem, não com determinação. Pode nos influenciar, mas não nos define totalmente. Ao menos os personagens não são sempre os mesmos.

A pessoa começa, claro, na mãe e no pai, aquela história toda que nem sempre faz sentido – ou cujo sentido é relativo – e que dá origem a um ser humano. A questão materna, física e instintiva, é um dado da vida. Só que a partir daí se abre o mundo e surgem contornos diferentes, histórias distintas, uma relação com a comida sempre em construção. Quem vai marcar, imprimir memória, pode ser pai, mãe, avó, avô, padrinho, madrinha ou qualquer outro adulto com quem a criança se relacione. Homem ou mulher. Ela olha, vê, escuta, sente. Aprende com os costumes e os gestos que presencia e não só com o que lhe é oferecido, ou dito.

No que se refere ao cozinhar e prover a comida, vale, talvez, ensinar a criança que NÃO é papel da mãe ou do pai (cozinhar, alimentar, abastecer a despensa). A bola é dividida. Diz-se que no relacionamento sadio entre duas pessoas prover é papel de quem tem condições de prover naquele momento. Alimentar, oferecer opções, orientar, descascar a laranja para os filhos? Idem. Os dois podem fazer isso a seu modo e a seu tempo, contribuindo para que seus filhos tenham a possibilidade de comer bem (se vão, é mais complexo) e, talvez mais importante, enxergar que o mundo é melhor dessa forma (…). Quando o papel não é tão rígido.

Trecho de um depoimento enviado pelo leitor Guilherme Resstom, nascido em 1962, em São Paulo, para o Lembraria: “Para mim é mais ou menos evidente que a memória ligada à comida tem sempre relação com família. No meu caso específico, com o meu querido pai”. E então ele conta que, embora em sua casa o hábito de comer peixe não fosse muito frequente, seu pai ia às vezes a uma peixaria buscar o robalo ou namorado que seria assado no almoço de sábado. “Uma das memórias mais remotas que tenho é a do meu pai, em seu Maverick, contornando o Parque Trianon, na Alameda Casa Branca, para entrar na Santos e chegar em casa. E o embrulho com o cheiro forte do peixe do meu lado. Depois, o peixe era assado. (…)”

É isso. Uma coisa é a referência instintiva, a memória às vezes inexplicável, a conexão natural e à qual às vezes nem sabemos dar nome e atribuir palavra. Simplesmente existe. Outra é o que construímos e a que somos expostos ao longo da vida. Talvez aí se manifeste a reflexão mais importante.

Comer, comer direito, pensar sobre a comida. Isso é da formação humana. É educação.

Não é um departamento separado dos cuidados maternos. Se para educar um humano é preciso uma aldeia, vem da aldeia também a responsabilidade coletiva de ajudar a ter boa relação com a comida. É importante lembrar que as falas do ministro da saúde Ricardo Barros foram divulgadas no anúncio de um plano do Ministério da Saúde que pretende, até 2019, deter o crescimento da obesidade e reduzir o consumo regular de refrigerantes e de suco artificial adoçado, promovendo consumo de frutas e hortaliças. Acho que na ocasião foi perdida a oportunidade de mostrar que a responsabilidade é de todos nós. Ao criar o ruído falando do papel da mãe, poderosa e onipresente mãe, as outras pessoas parecem não ter responsabilidade. É um erro. Os adultos da aldeia, sempre penso neles, são fundamentais, bem como (e como) escola, publicidade, indústria alimentícia, pesquisadores, cientistas, imprensa. Todo mundo precisa agir no mesmo sentido. É bem mais complicado. E importante.

Sendo assim, por favor, vamos entender uma coisa: imagine o homem ou a mulher que descasca a laranja distraidamente, talvez tarde da noite depois de um dia cheio de trabalho, na frente de sua criança pequena que nem vai comer a laranja, mas está ao seu lado, quem sabe em seu colo, observando o gesto. Ela esperou para sentir o cheiro que entra junto com o pai e a mãe na volta da rua, o cheiro do banho tomado, o cheiro da laranja descascada. E para ouvir aquela voz. É mais do que comer. É mais do que estar presente em horário regulamentar.

As mães e os pais (e os tios, avós e outros) são os responsáveis por orientar, por mostrar que comer laranja, fruta fresca, é bom, se for logo que arrancada do pé, ainda melhor, se não for, comer a fruta do supermercado e que já vem descascada na bandeja é simplesmente melhor do que não comer. Talvez o modo como um pai ou mãe descasca a laranja tarde da noite, “na hora que dá”, e enquanto rola uma boa conversa, seja bem mais poderoso na formação do paladar do que em uma presença cotidiana forçada e determinada por papéis de gênero/sociais que engessam as relações. O conceito da presença, do estar junto, é relativo. Eu posso me sentir em casa, acuada, sem alternativa o dia todo e seria difícil desviar minha filha dessa tensão (…). Há dias em que é bem assim. Eu posso também, por precisar e por desejar, trabalhar na rua, e, quando estiver com ela, descascar a tal laranja formando cobrinhas com as quais vamos brincar e nos amar nessas brincadeiras, de um modo que inspire, emocione, estimule, estabeleça vínculo. Eu, o pai, podemos estar em qualquer lugar. Os gestos e as conexões ficam marcados e mudam a vida, como cantam os Beatles, aqui, ali e em toda a parte.

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