Miojo, queijo ralado e pimenta-do-reino

Tente fazer um inventário de coisas que você gosta de comer quando está só. E livre. Livre de certo, errado, pode, não pode, filtro de rede social. É provável que a lista fique cheia de besteirinhas pouco edificantes e, ao mesmo tempo, poderosos gatilhos de felicidade. No fim, emocionada/o, talvez você faça umas compras para abastecer a despensa, sem dar a mínima para o olhar inquisidor dos fiscais de carrinho entre gôndolas. Feliz.

Eu até me largaria no sofá para comemorar, sozinha, comendo pão branco com maionese enquanto a vitrola em volume bom gira ao som de Bee Gees e How deep is your love, ‘Cause we’re living in a world of fools/Breaking us down when they all should let us be/We belong to you and me…

Let. Us. Be.

O que você come “escondido”?

Confissão em praça pública, a seco, sem dry Martini e azeitona encharcada de gim, apenas encorajada por uma dose considerável de açúcar circulando pelo corpo: eu gostava, desde pequena, e confirmei há alguns minutos que ainda gosto muito, de beber leite condensado direto da lata. Sugava dos pequenos cortes abertos pelo tubarão invertido.

Naquela vida, depois da primeira metade e antes de enjoar, eu terminava de abrir e com uma colher raspava o fundo da lata onde havia uma camada residual de leite superdoce, uma raspa açucarada. Alguém lembra desse defeito incrivelmente bom? Só então eu bebia o resto. Acho que “corrigiram” a fórmula, porque não há mais nada. O leite é todo uniforme e liso.

Perdi, no fundo da lata que virei agora, o pudor de compartilhar minhas manias. Vale protestar que nesse desenho atual da embalagem o tubarão é imprestável. Tem até manual: posicione, levante, apoie (outra história).

Por que eu era feliz bebendo leite condensado da lata aos nove anos? E ainda sou? Energia correndo nas veias, gratidão cerebral. Não sei. Era e ainda é um prazer que existe ao ficar sozinha (se bem que no momento não estou tão só, há uma exigente página em branco cujas cobranças eu literalmente minimizei para escrever em outra).

Naquela época, eu assistia a um programa de entrevistas, desses vespertinos, meio que um debate para adultos. Hoje prefiro o silêncio para me concentrar melhor no infinito onírico do momento. Não é coisa que a gente faça na frente dos filhos (nossos e dos outros). Escondidos, os efeitos desses caprichos talvez se tornem mais potentes.

Tenho outro preferido, para os dias em que me vejo livre de qualquer papel esperado, como os de jornalista e mãe. O “ponto de êxtase” é me saber sozinha por tantas horas que vou poder comer miojo “em seu próprio tempero”, sabor galinha caipira, pouco caldo e muito queijo ralado, mais uma porção de pimenta-do-reino moída na hora. Bebo até espumante, se der. É um espaço mágico – e mágico também é o fundo do armário mais alto da cozinha, onde, aprendiz de farrapo humano, cultivo uma plantação secreta de pacotinhos amarelos para casos de autoindulgência.

***

Comecei a pensar nessas coisas quando li sobre um subgrupo ou comunidade do Reddit que existe para discutir vantagens e desvantagens de comer laranja debaixo da ducha. Me lembrou alguns métodos, técnicas e manias que desenvolvemos para consumir alguns alimentos: o feijão vai embaixo ou sobre o arroz? Come biscoito recheado de uma vez ou abrindo e devorando primeiro só o recheio? Enfim, um dado, um gosto que, repito, tem até subgrupo para debatê-lo no Reddit – talvez o pessoal esteja apenas com muito tempo livre.

Também me instigaram as chamadas comidas “reimosas”, um tema que Vivi Aguiar desenvolveu no Lembraria.com, revisitando alimentos proibidos e permitidos durante o resguardo. Um texto muito bom que resgata um pouco como a cultura popular e familiar e das parteiras, no Brasil profundo, na cidade e nas casas de antigamente, enxergava as características de certas comidas que fazem mal ou bem para a mulher que acabou de ter filho ou que está amamentando. Algumas dessas mulheres que se viam proibidas de comer certas coisas o faziam mesmo assim. Escondido.

Esses dois assuntos, com suas regras e permissões, me levaram aos segredos. Em um mundo em que compartilhamos à exaustão o onde estamos, o que comemos e bebemos e achamos bacana, pouco se fala ou documenta os pequenos prazeres que são capazes de nos conduzir ao ponto de êxtase sem precisar pegar o avião para sentar à mesa no melhor restaurante do mundo.

É até bom cultivar o segredinho, talvez deixe a experiência mais saborosa, com uma pitada de transgressão. Por outro lado, já que encorajamos e nos orgulhamos do livre cozinhar, do artesanal, das tais comidas “de verdade”, “de mãe”, “de vó” e o “com quem” dividimos a mesa, bem como o desejo de validar a experiência em curtidas de aprovação nas redes sociais (eu gosto disso/também gosto que você goste disso/gosto que você goste que eu gosto disso), precisamos guardar lugar para a liberdade de recorrer às bobeiras.

Let. Us. Be.

Ou seja: tudo isso tem sua razão, só que não invalida a potência dos pecadilhos. Arrisco dizer que só de falar neles já ficamos um pouco contentes.

***

Pedi a uma pequena rede de amigos que compartilhasse comigo esses segredos. Espero que não se importem, porque espalhei as palavras e com elas montei a poesia lista de compras abaixo. Por alguma razão, só mulheres responderam. Um homem me disse que se contasse não era mais segredo (ahã).

Ficou lindo. O que mais?

Manteiga na bisnaguinha (“Roubada do pacote das crianças”)

Torta fria da infância (“Montada com pão de fôrma ruim com maionese, pasta de atum, azeitona, geleia qualquer: amor de criança, com jeito de abraço.”)

Barras de chocolate devoradas sorrateiramente, por uma mulher que dá a impressão de estar arrumando o armário de mantimentos… (uma imagem que me enche de ternura e vontade de comer chocolate)

“Miojo sem tempero, bem escorrido, com muito cheiro verde picadinho na hora, azeite e um ovo mole com pimenta-do-reino por cima”

Bolacha recheada

Macarrão fresco, cru

Comer só a mistura

Café lotado de açúcar

Nutella. Em tudo

Nuggets de frango (com maionese, com curry)

Macarrão com feijão

Linguiça crua (“olho para um lado, olho para o outro e coloco um naco na minha boca…”)

Massa de pão, folhada, de pizza… Crua! (“São fofinhas, têm uma textura quentinha, nos remetem ao que temos de mais primitivo…”)

Bisnaguinha. Com tudo

Doritos, cebolitos. Doritos com Coca-Cola

Cream cracker com requeijão ou maionese ou geleia (“Há um prazer único em passar pacientemente requeijão sobre um cream cracker sem sujar os dedos.” (E sem quebrar o biscoito))

Cream cracker com chá. Na casa da vó. Com a vó

Pipoca doce do Chico devorada antes de tocar o sinal da escola para buscar as crianças…

(…)

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s