Elis e Tom, arroz com feijão

Quando penso em Elis e Tom, juntos, naquele álbum maravilhoso de 1974, sinto um contentamento profundo, uma vontade imediata de ouvir Chovendo na Roseira e cavar, no cotidiano por vezes atrapalhado pela realidade excessiva, um outro abismo. Um abismo de tudo bem.

Basta cair a chuva na arvorezinha que é de ninguém e desabo eu, com gosto, para dentro da névoa de possibilidades desconhecidas e imaginárias e da vontade de começar a escrever uma nova história, rabiscando as letras na poeira dos dias.

Em geral, a genialidade de tanta água convertida em boa música, as da roseira e as de março, se derrama com força e leva a poeira que queria resistir banhada de sol. Ela queria resistir com um certo brilho. Um brilho atravessado por um arco-íris.

A imagem, desmanchada e bonita ao estilo rímel borrado por lágrima e alívio, serve para me colocar no lugar, feito competente massagem oriental: o lugar de maria-ninguém na fila das letras linhas tortas, aquela que precisa de pauta, coragem, disciplina e paciência. E de muito feijão. Sem problema nessa última parte.

O sentimento de vastidão íntima que o barulho bom daquele disco provoca em mim já me dá muito e até que persiste. É parecido com o que surge dos ruídos muitos da cozinha ao promover outro grande encontro: o do arroz com o feijão. A qualquer tempo, esses dois dão um sempre lindo álbum, sobretudo se for para girar em prato fundo, na agulha da colher de sopa. Com fome.

Elis e Tom. Arroz e feijão. Combinados extraordinários.

Cebola e alho para refogar e aquela sensação de tudo em seu lugar que o ruído da pressão oferece: não há motivo para pânico, enquanto houver borrachinha sem desgaste, feijão para tingir o caldo e a panela chiar.

O amor do arroz e do feijão não é hesitante. É do tipo em que um melhora o outro; eles se bastam, se preciso for, e sabem acolher a mistura do dia. Só que esse amor também se nutre da liberdade de deixar ir para o mundo e viver outras histórias. Vai o arroz embora, variar-se por sua conta e risco em camarões ao leite de coco; o feijão, quem sabe batido, será bebido da caneca, com torresmo e cebolinha, alho dourado. Pimenta. Quando se reencontram, tudo ainda está lá. Percorrem-se, rios e barcos navegados e tripulados por suas novidades. Um é a casa do outro: o lugar para onde existe desejo de voltar.

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