Um texto que se repete em mim

Era mais ou menos assim que eu me sinto. Desencontrada nos tempos verbais e no texto que se repete desde outro fevereiro, ao estilo tudo muda para ficar como está ou talvez um pouco pior. Um livro que não sei qual era dizia “…com medo de incorrer em sua ira, deixei-a com ‘Um artista da fome’ e me esquivei.” A pessoa que morde e a que sabe que pode ser mordida.

No princípio, escrevi que o ano demorou para começar e, ainda bem, tem espaços para respirar — aqueles momentos que satã tenta achar e estragar, mas não consegue. Os industriosos, como diz o poema, sempre acham. E lá são salvos um pouco por dia. Ou por mês. Depende da sorte.

A diferença entre o escrito anterior e o de hoje é que ano nenhum existe em mim. Eu ando por aí, me movo nos dias, brigo na fila do açougue, ocupo pequenos espaços, atravesso na faixa, agradeço, me alegro com a sua alegria, passo o café logo cedo, me atraso e me adianto, abro e fecho livros, encho e esvazio as mochilas, derramo e recolho lágrimas, refogo a cebola e volto de onde não estive, porque não estou em nenhum lugar.

O texto que se repete em mim foi escrito na tinta do bacon, gordo de votos de Ano Novo e no pedido de paz, sabendo que o que há de livre é o querer. Pedia distância de aduladores e sicofantas, mostrando que sou desinteressante, não tenho onde cair viva, desaconteço e prefiro não. Cortava o que não é essencial por motivo de viajar leve, de estar quebrada e de não ter vontade.

Eu torcia, e assim é, para poder trabalhar com a regularidade de pagar as contas e abrir espaços no dia e na noite para escrever, comer, beber e ler e ver filmes e séries (comendo e bebendo). Em alguma parte daquele texto eu também tive esse desejo enorme de abrir uma livraria com drinques e comidas, lugar de comer palavras e engolir construções bem feitas, mas é preciso ser realista.

Se acontecer um milagre mais milagrento do que água desabar do céu e assim eu conseguir sair da movediça, também vou dar um jeito de ir embora para depois talvez voltar. Quem sabe um dos (mais frios) sete planetas irmãos que a Nasa descobriu. Acho que estão mais perto de mim do que o Butão e sua gente contente. Ou não.

Espero, ora em pé, descascando o alho e lavando folhas, ora sentada e confiante, fervendo tomates, batatas e pensamentos, que todos tenham uma vida gostosa, pessoas de verdade por perto e coisas que importam (gosto muito de lápis, mas perco todos).

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