Por um passeio sem pressa até o portão azul

A moto do entregador do açougue quebrou. Eu tinha encomendado logo cedo patinho e fraldinha moídos na proporção de suculência para falar às regiões de recompensa do cérebro. Queria concentrar sabor e sossego no recheio da panqueca.

A carne não veio. Sobravam 47 minutos para ir em frente com um suposto plano B, de fio a pavio e excelente em suas limitações. Não havia plano B, claro. Quem vive por um triz e por um frio (na barriga) executa com emoção o plano A, sem escala no papel e na base do disfarce. “Tenho tudo sob controle”. É mais ou menos assim o app a vida, para quem deixa acionado o modo transitório.

Não dá para dizer que passo mal com o que sei. O arroz fica sapecadinho, porque divago, mas volto a tempo e enxergo aquele quase queimado com profundo contentamento: raspar e comer.

O problema é essa angústia que tem me assombrado nos últimos dias. Não posso ouvir “O que vai ser hoje?” que me arrepiam os pelos todos do braço e me formigam as mãos. Penso: quer saber da mistura. Às vezes, é só o frentista do posto: …comum ou aditivada? Por dentro, no entanto, eu sou só um enorme não sei. E quero poder não saber. Talvez fosse mais simples eu programar a despensa no cardápio semanal e não misturar as paranoias. Ainda não cheguei nas prateleiras em ordem.

A busca pela mistura é feita com os recursos do dia. Apetite, tempo, desejo e capacidade de combinar o que domino com o que pretendo. Quando surge uma comida gostosa em um romance ou vejo em um filme, tenho de fazer alguma coisa a respeito. Alguns verbetes me provocam.

Vazia, sem imaginação, naquele dia me enfiei em um same old shaggy dress e, com a aparência típica dos nervos em frangalhos e alguma capacidade para operações básicas (fingir que sabe o que está fazendo, dar bom dia, responder sobre a secura do ar a chuva de granizo de ontem e o sódio da água com gás e o cpf na nota etc.), desci até o mercado.

Arrastei os chinelos na calçada, devagar, para ganhar tempo. Prefiro não comprar carne ali por motivos de não gostar de bandeja pronta e de não suportar o conflito diante da resistência padrão do funcionário que não quer preparar o corte na hora. Ele deve ter uma meta de bandejas de isopor para montar por minuto.

Perto do freezer, tento desviar da promotora, mas ela me oferece o palitinho, cuidado que está quente. É um pedaço de almôndega. Quando me diz que os bois são de não sei onde, criados assim e assado, e o produto é “sustentável”, eu, insustentável, escuto dublado: “…os bois vivem sossegados e bem tratados com massagem, sombra, água com gás fresca, internet sem fio, vinhos, drinques, figos, música, livros, Netflix e ar-condicionado.”

Tem gosto de conveniência esse bolinho de carne. Não é saboroso como o meu, quase gordo e que moldo e tempero do meu jeito e adoro ver soltar o suco na assadeira, para depois limpar com pão (nunca fritei, mas deve ficar bom também).

Estou naquele lugar que dificilmente me detém. O freezer. Dos processados. Mastigando amostra grátis e prestes a me convencer da história dos bois que não leram A Revolução dos Bichos.

Enfio a mão no ar frio, pego uma embalagem, leio os ingredientes e, olha só: não me sinto ofendida por eles. Coloco na sacola e percebo um peso enorme deixar meus ombros junto com 23 reais que saem do bolso (caro, eu sei).

Parto para a próxima: encontrar a massa seca que cozinha em três minutos e deixar o meu rim na quitanda de orgânicos por um quilo de tomates italianos maduros, que vou esquecer no fogo baixo por quarenta minutos com um pedação de manteiga e outro de cebola. Teremos mais de meia-hora para almoçar. Acho.

Queimei a ponta dos dedos na pele de tomate fervido. O resto da culpa eu comi em prato fundo, um pouco de pimenta-do-reino moída na hora.

***

Não vai ter almôndega processada menos pior todos os dias. Hoje ela me salvou de me enervar, de tentar fazer o que não daria conta. Esse é o tipo de coisa de pior (mãe) do mundo que eu faço em situações de é preciso ceder e, acho, estou de parabéns. Cedi.

Consegui trabalhar, vi a menina desenhar, falei menos “agora não posso”, “já vou”, “tô na cozinha!” e pude ajudá-la a ler duas poesias tendo, ao fundo, o bom barulho do progresso em andamento, da comida encaminhada. Molho espocando no caldeirão.

Depois de um banho demorado, à mesa brincamos de “eu vi, eu vi, eu vi” e comemos sem pressa. Seu molho é divino, disse a menina. Coloca mais?

A pior mãe, o melhor almoço remediado.

Perto da escola, havia um lugar à sombra para estacionar, sem contudo nos tirar o prazer de uma pequena caminhada de mãos dadas até o portão azul. Deu tempo de ouvir um último verso dos Beatles antes de desligar o rádio e ir.

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