De chuchar o pão e lamber o prato

Elogio ao caldo

Suponho que isso seja um elogio ao caldo da sopa de cappelletti. A resolução está ruim, mas o brodo estava ótimo

Estava procurando no computador umas fotos de dois dos mais especiais elogios que recebi da menina sem que ela dissesse uma palavra. Ainda não encontrei. Sei que o primeiro foi quando lambeu o prato para não perder o que sobrou do molho de tomate; na outra vez, depois de tomar a sopa de cappelletti, bebeu o caldo da tigela. Só ela e a comida sem intermediários e com a importância de não perder uma gota. A face desaparecida atrás da porcelana, mãos miúdas levando o prato à boca e eu, oculta, sentindo um frio na barriga do tipo que nos dá quando desaba sobre o amor uma chuva de purpurina.

Apliquei esses gestos espontâneos na conta dos elogios, como se ela estivesse sublinhando a palavra divino em um bilhetinho, mas talvez tais gestos tenham sido apenas um sintoma comum de o melhor tempero é a fome. Pico de crescimento da primeira infância. Nenhum planeta retrógrado no céu de gêmeos naquelas noites lindas.

Enquanto isso, ao fundo deste texto, Dusty Springfield exige que don’t tell me what to do, don’t tell me what to say, porque eu não poderia, naquele instante, dizer a ela que isso não se faz, que é falta de educação lamber o prato em qualquer circunstância, arrancando-a daquele lugar lindo em que encontrou recursos instintivos para terminar (ou prolongar) sua refeição. Já lhe dou tantos “não pode isso”, “não pode aquilo”. Não, não, não. Mas, realmente, não valeria estragar o clima com o tipo de não que a gente atribui ao falar de boca cheia ou ao atravessar a rua sozinha.

Não estávamos em um restaurante ou jantando com Elizabeth II. Em casos assim, só posso sugerir que, na frente de estranhos (e da rainha), ela tenha o cuidado de recorrer a um pedacinho de pão para enxugar o prato, sem espetar o miolo no garfo, por favor. Mamãe acharia que é frescura demais, doutor Divago. Usa a mão para fazer uma scarpetta de verdade, filha. A scarpetta é um dos mais bonitos elogios ao sabor que já inventaram. Fare la scarpetta.

(qual o limite de “nãos” para um texto perder até o prestígio que não tem…?)

Há molhos que pedem um pedaço de pão para “chuchar”; a gema mole do ovo, também. E tem coxa de frango assado, para segurar pelo osso e se lambuzar um pouco. Não há deselegância. É um jeito de dar conta. “Comer com garfo e faca traz consigo uma presunção que nem sempre se justifica. É um modo muito afetado de ingerir alimentos”, escreveu a historiadora Bee Wilson na página 228 de “Pense no Garfo” (Zahar, tradução de Vera Ribeiro). Ela acha que, de tão banal, não nos damos conta do tanto que os talheres nos atrapalham. Pode ser. Se bem que eu penso que percebemos, sim. Atire o primeiro guardanapo limpo quem nunca se afligiu quando colocou os olhos sobre uma fileira interminável de talheres à mesa refinada ou, ainda, brigando para comer com delicadeza algo como um lagostim ainda na casca (sem transformar o primeiro encontro em cena do filme “Um convidado bem trapalhão”, roubando o papel do Peter Sellers). Por mais serviços menos complexos, por favor.

Peter Sellers em The Party

Peter Sellers, convidado trapalhão à mesa, usou o talher certo na comida errada

Fora isso tudo tem a levada de cada lugar; os costumes de sua gente. Na culinária indiana, por exemplo, percorre-se uma refeição de ponta a ponta rasgando folhas de pão e com elas envolvendo a comida. É parte da tradição e do ritual. “Comer com as mãos evoca grande emoção. Acende algo muito quente e gentil e carinhoso. Usar um garfo é impensável na alimentação indiana tradicional. É quase como uma arma”, disse Julie Sahni, autora e professora de culinária, nesta reportagem do The New York Times.

Embrulhar a coxinha coquetel no guardanapo de papel ou sentir a textura de sua casquinha com os dedos; comer um pedaço de pizza sem garfo e faca, só que com luva de plástico? Uél, como preferir. Em muitos casos, contudo, há que se conviver com as consequências de ir contra o destino de determinados alimentos e de suas próprias mãos, feitas para tocar. Nada muito grave, acho, mas experiências diferentes. Há momentos – muitos, aliás – em que a tecnologia não presta e desencadeia um ruído perturbador. Lavar bem as mãos antes e depois é o que basta. Daí, é lidar com os desafios na medida em que surgirem diante do seu apetite. Não? Penso que sim.

O artigo do NYT que marquei acima é antigão, foi publicado há uns cinco anos e lista uma porção de lugares em Manhattan que naquela época tentavam propor um modo de comer “mais informal” e “conectado com a comida” (com as mãos). Não era conversa de comida de rua, outra modinha “gourmetizadora” que quando mal-intepretada faz muita gente pagar caro, com exceções, para comer em pé em prato de papelão (sono, desconforto, fila).

De um lado, novas casas com uma “proposta”. De outro, refinados restaurantes indianos desencorajavam a tradição ligada às origens, a pretexto de não incomodar consumidores que, segundo eles, não queriam “ver” as pessoas comendo com as mãos. De repente, havia um embate entre “ensinar a comer informal” ou “resistir”, “separar”, “higienizar’, “proteger”.

Quando se fala de comida, e não só, é muito enfadonha a perseguição das modinhas, nos mais variados sentidos. Só espero que não venham com isso: “food truck gourmet para comer polenta mole com as mãos de forma colaborativa, uma proposta de interação sinestésica com a comida”. Polenta mole é complexo. Não vai rolar. Parem. Ou, ainda, um tal “curso de degustação criativa: aprenda a comer informalmente”.

A gente não precisa de manual para tudo na vida, desprezando a espontaneidade. Podemos só comer e, se for o caso, fazer a scarpetta musical com a Dusty Springfield.

 

Um pensamento sobre “De chuchar o pão e lamber o prato

  1. Pingback: “Todos, do rei e rainha ao camponês e sua mulher, comem com as mãos” – Lembraria

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