Que seja doce, pelo amor do figo em calda

Era um desses instantes que se aproximam da perfeição: depois do ótimo almoço de domingo, eu sorvia da xícara o café bem quente e pensava com o maior prazer que logo menos iria reencontrar um livro, no sofá. Ler e cochilar e confundir as horas. Foi então que minha filha se aproximou e me tirou dos devaneios tolos. Dos devaneios, todos.

“Oi, mamãe. Eu quero falar uma coisa.”

Ajeitei a postura e estiquei meu vestido, pronta para ouvir “Quando eu crescer eu vou morar sozinha e a gente se fala, tchau!”

Mas não foi isso o que ela me falou.

“Mamãe, eu tenho um sonho. Eu quero que os doces façam tão bem para a saúde que, um dia, eu vou precisar comer MUITO doce para ficar boa.” E saiu, exclamada, solene, quase engolindo o choro, para brincar e se contar histórias em algum canto da casa da vovó.

Momentos antes da declaração que me deixou perplexa (porque é triste e engraçada), nós, eu e a menina, havíamos travado uma batalha trivial, dessas em que a pessoa que só beliscou comida de verdade exige comer logo um pote de marshmallow na sobremesa, sem passar por uma porção de fruta fresca. Maçã? Laranja? “Não quero fruta, quero doce.” – Não tem jogo, filha, sinto muito, assinado eu, sua megera preferida.

“Tudo bem, mamãe, eu passo fome. E eu nunca mais vou comer. Nada. Na vida!”, disse minha Scarlett particular e que o vento não levou.

Esse episódio me fez vir aqui bater na sua porta e, a pretexto de pedir uma xícara, puxar papo sobre o açúcar.

Sou uma mãe anormalmente normal, que faz um monte de besteira ao estilo a melhor pior mãe do mundo. Nós, eu e a menina, conversamos bastante sobre comida, por motivos óbvios. Tento oferecer todos os dias informação e referência para que vá para a vida tomando decisões que sejam boas para ela. Estamos em uma fase bagunçada. Eu acerto pouco, ela não gosta de nada – e pensar que já foi tão diferente. Saudade, abóbora cabotia; saudade, risoto de ervilha e camarão… batata-doce, tomatinhos sweet grape, creme de mandioquinha de aperitivo. (Sim, é uma menina inteligente e teimosa e “manipuladora” dos meus sentimentos, como costumam ser as meninas pequenas inteligentes e teimosas e que gostam muito de docinhos.)

Que seja. Vamos ver como fica. Por ora, digo que nessa reflexão sobre responsabilidade e limite eu me lembrei de uma afirmação da jornalista Eliane Brum neste texto importante sobre as engrenagens das porcarias que comemos (e tudo bem e tudo ruim; comemos e sabemos). “Não é fácil ser pai e mãe diante de um assédio tão poderoso e tão insidioso como o da indústria de junk food. Mas é preciso ser pai e mãe.” Eliane fala de um livro-reportagem do jornalista Michael Moss chamado “Sal, Açúcar, Gordura – Como a Indústria Alimentícia Nos Fisgou”, publicado nos Estados Unidos em 2013 e lançado no Brasil em 2015 (Ed. Intrínseca; trad. Andrea Gottlieb de Castro Neves).

Em uma profunda investigação sobre a indústria usar a seu favor o que descobre por meio da ciência, em especial financiando estudos relacionados à comida e ao sabor e à psicologia de todas essas relações, Moss descreve como o esquema se aproveita de um dado “natural”: somos programados para gostar de doces – uma espécie que precisa de energia; açúcar é combustível – e dotados de receptores que reagem ao açúcar na boca e na língua, em ligação direta com as áreas de prazer e recompensa no cérebro. Açúcar: nunca te vi, sempre te amei, te quero, preciso de você. Um doce, pelo amor do deus do figo em calda.

Os fabricantes de ultraprocessados pagam para conhecer esse sistema cada vez melhor e, assim, entregar o que “desejamos”; colocam açúcar à beça em alimentos (doces e salgados) e bebidas e ganham mais e mais dinheiro. Conhecemos a lógica perversa. O livro, muito bom (e que eu, atrasada, só estou lendo direito agora), usa uma linguagem clara, ao modo de um documentário de tirar o fôlego e fazer pensar, para nos lembrar de que não somos bobos e de que precisamos nos responsabilizar por nossas decisões. O que aceitamos, as brigas que compramos. E acho que temos comprado.

A briga que eu compro? Açúcar em seu devido lugar. Cristal, no pote hermeticamente fechado ao lado da farinha para eu fazer o bolo. De confeiteiro, para nevar na cobertura. E se eu quiser botar uma colher de chá no molho de tomate caseiro, bem, a combinação é minha. Não veio de fábrica. Decido eu.

Fora isso, defendo que o açúcar seja esse ingrediente extraordinário que é, protagonista das nossas festinhas infantis armadas na cozinha de casa. Naquele tempo, lembra?, sobre a mesa, o pão-de-ló recheado (cobertura de glacê) era rodeado de cascos de refrigerante, balas de coco embaladas no papel de seda colorido. A forminha plissada, vazia no meio da bandeja, indicava que o brigadeiro enrolado na véspera tinha sido devidamente subtraído da decoração, em fuga. Sinal de que está tudo em seu lugar. E guarda um pedaço de bolo para comer, gelado, no domingo de manhã. O melhor da festa é o bolo no dia seguinte. Comer e lembrar.

***

Hoje no Questão de Gosto o tema é esse. Não é para ser conversa nutricional sobre o que “faz mal” ou, “ah, somos vítimas”. A ideia é assumir o controle e defender um lugar para o açúcar, sabe? O lugar do especial, extraordinário e gostoso. Pode comer doce? Fica à vontade, desde que você saiba o que está fazendo e, por favor, festa de aniversário com beijinhos e brigadeiros e cajuzinhos para a gente roubar antes do parabéns pra você.

***

A propósito: fim/começo de ano, fim/começo de mês, é uma grande segunda-feira, né? A Nestlé aproveitou a temporada para dizer que vai tirar 40% do açúcar de seus chocolates “sem alterar o gosto” (se ela descobriu que dá para fazer chocolate gostoso com menos açúcar, isso é mesmo grande… e parece ser uma resposta para um consumidor cada vez mais sabido. Tomara.); um fotógrafo ativista da alimentação saudável criou o projeto SinAzucar.org (espanhol), em que registra em imagem a quantidade de açúcar nos alimentos industrializados (a medida usada é o cubo/torrão de 4 gramas); e esse jornalista do The New York Times compartilhou a experiência de ficar um mês por ano sem consumir nada de açúcar, exceto o das frutas. Ao cortar o ingrediente por trinta dias seguidos, ele diz que perdeu peso, seu paladar mudou para melhor e o desejo regular por açúcar nos outros dias diminuiu significativamente. Sofreu, mas recomenda. A ver.

***

Entre doces e salgados, a minha descoberta preferida da semana foi esta: sabe o que é misophonia? Misophonia é sofrimento. De verdade.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s