Almoço de domingo

food-dinner-lunch-meal

Eu, que já nasci velha, penso que agora tenho ainda menos tempo para ficar dando garfadas no vazio, golpes no ar tentando pegar letras e formar sentido e encontrar sabor no discurso repetido. Me dá azia (foto do banco de imagens Pexels)

Aos domingos, por um prato de comida, há quem vá até o fim do mundo. Existe uma suspensão no ar, uma licença para a melancolia e o desaparecimento. Com a sorte de perceber e saber usar essa liberdade, andamos por aí como queremos: à vontade, enfrentando o mundo com nossas máscaras, ou de cara limpa e pés no chão frio, calça de pijama, camiseta furada e cabelos em revoada.

Se de tão sensível o espírito não conseguirmos sair, se não suportarmos a menor ideia de contato, é bom lembrar que no armário há um macarrão instantâneo escondido atrás da lata de aveia em flocos, a três minutos de ser deitado sob queijo ralado na hora, em porcelana salpicada de pimenta-do-reino recém-moída. Um copo de espumante? Uma cerveja? Quase felicidade.

Para quem não está de plantão em qualquer atividade, o domingo é um raro dia inteiro. Na casa em que se cozinha os cheiros e os humores do fogão se apresentam logo cedo. Começa a almoçar às duas e só sai da mesa ao entardecer. Abrimos outra? O espocar da rolha silencia a impertinência das preocupações.

Tenho um amigo que almoça com a família ruidosa na casa da mãe de sua mulher em quase todos os domingos. Ela é, costuma dizer, a melhor cozinheira ao estilo Fauna, Flora e Primavera. Sua cozinha é impecavelmente viva e os aromas contam uma história de deliciosidades.

A mistura, a guarnição e a salada são caprichadas. O assado (ou cozido) de porco, se existisse no livro de receita pareceria complicado e demoraria dezesseis cerimoniosas e apreensivas horas para se arrumar. Ali, porém, fica pronto em tempos invisíveis, no riscar de um fósforo. Da carne que brilha –  só de olhar já se sabe que vai desmanchar na boca –, desprende um sumo saboroso que cozinhou as batatas em ponto mais que perfeito. Por dentro, no meio, elas são puro purê. Nas beiradas, um crocante caramelo.

Aquele sumo gruda na assadeira ou na panela e é assim que vai para a mesa, nada de travessas especiais: que toda a gente prolongue a refeição raspando os cantinhos que vão se juntar ao arroz repetido. Elogios de fio a pavio. Passa a farofa, por favor?

Um dia meu amigo não foi. Avisou que hoje vamos atravessar a cidade, não tem trânsito, para conhecer um lugar novo que diz que tem uma nova comida antiga (inspirada, revista, talvez ampliada). No fim, comeu uma narrativa mal contada, com pouco tempero, sem graça. E a música era ruim. Era para ser um almoço de domingo.

Frustrado, algum dinheiro mais pobre, passou na padaria para fazer uma hora e antes de pegar o caminho da volta. Queria tentar entender o que tinha acabado de viver. Fingiu estar alegrinho e disse o que sempre sonhou para a funcionária: leave the gun, take de cannoli! Creme, chocolate ou doce de leite, perguntou ela, indiferente, as portas da loja já estavam cerradas com poucos clientes lá dentro.

Comendo o doce, pensando no cheiro de pastel, ele me ligou. Do táxi. Quem usa telefone para ligar hoje em dia, se não for banco, operadora de internet, essas coisas…? Quem atende? Achei que fosse um caso de vida ou morte, disse alô esperando o pior e ele nem perguntou da minha dor no joelho. Foi logo dizendo como é que você não me avisa que aquela história toda de comida de mamma poderia não dar certo sem a nonna para supervisionar o trabalho dos cozinheiros? De que adianta o galpão reformado, o cimento queimado, as lâmpadas, as portas de ferro, a fila na porta e o meu apetite aristotélico temperado pela fome…?

Mas, como…?, respondi. Eu ainda não fui. “Sorte a sua. Não dá para comer medíocre no restaurante. Não dá para comer medíocre nenhum dia, e aos domingos menos ainda. Domingos de crise, domingos em que a gente deixa de dormir à tarde e de ir comer na casa da Fauna Flora Primavera. Quem sabe outro dia, quem sabe troquem a playlist, quem sabe a avó deles passa lá e faz uns comentários.”

Desligamos. Eu com vontade de comer cannoli e irritadíssima por ele ter mastigado na minha orelha daquele pior jeito: a pessoa tem comida na boca, mas fala como se não tivesse. Aliviada por ter dito mais cedo que não poderia ir. Hoje, não. Acordei atravessada, com vontade de ficar.

Mas se açúcar de confeiteiro fosse sinônimo de razão, meu amigo estaria coberto dele. Um pico nevado. O lugar que abre aos domingos, diante do extraordinário da hora, precisa saber e falar, com gestos e delícias e boa trilha sonora: “Me deixa oferecer motivos para você voltar, permita-me valer a viagem a ponto de que sua mão precise atravessar a mesa para levar o garfo até a boca de quem está contigo, porque simplesmente não há outra maneira de mostrar: ‘Olha isso que eu não sei dizer’”.

Há um monte de casas assim, endereços certos, filas explicadas, cardápios conhecidos, pouco desgaste para escolher. Sem surpresas. E casas de Fauna Flora Primavera. Outros lugares passam por dias ruins. Ou simplesmente se movimentam por um diz que diz até que a história acabe. Eu, que já nasci velha, penso que agora tenho ainda menos tempo para ficar dando garfadas no vazio, golpes no ar tentando pegar letras e formar sentido e encontrar sabor no discurso repetido. Me dá azia.

Na segunda-feira, a essa altura, talvez o mal-estar tenha passado. Vou ligar para ele e convidar para comer pastel e carpaccio no bar. Vamos beber Martini devagar, azeitonas encharcadas. Daí eu vou dizer: eu te entendo, almoço de domingo é uma figura de linguagem para o tudo certo nada resolvido. É deitar de barriga cheia junto de um livro e adormecer com ele aberto sobre o peito. As palavras quem sabe desaguam para dentro do leitor, sem ofender a gravidade. Foi assim comigo, ontem. Não foi assim com você que acreditou na narrativa mal editada. Faltou sal e outros temperos. Uma história triste de domingo, eu sei, um dia inteiro que escorreu pelos dedos, mas, e hoje? Olha esse carpaccio. Há quase vinte anos, sempre bom, não é? E o pastel? Coloca tabasco da garrafinha encardida. Viu? Passou.

2 pensamentos sobre “Almoço de domingo

  1. Pingback: Que seja doce, pelo amor do figo em calda – do que eu falo quando eu falo de comida

  2. Pingback: Uma dorzinha no “voltar para casa” (ou um amor de domingo) – Lembraria

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s