Come, minha filha (se estiver com fome)

Eu realmente espero que ainda seja possível citar a Clarice Lispector de verdade sem ser apedrejada, por favor. Acredita em mim: o trecho abaixo e em itálico é um excerto do conto Come, meu filho. Ele existe, foi escrito por ela e é muito bom.

– Mas você está olhando desse jeito para mim, mas não é para eu comer, é porque você está gostando muito de mim, adivinhei ou errei?
– Adivinhou. Come, Paulinho.
– Você só pensa nisso. Eu falei muito para você não pensar só em comida, mas você vai e não esquece.

Hora do almoço. O que você faz? Coloca a comida no prato e te conforma se a pessoa não estiver com fome agora. Vai comer quando der. A vida é assim: um dia, eles lambem o prato, porque o caldo estava “divino”. E pedem mais. No outro, não estão com fome ou mudou o paladar e não gostam mais de lasanha caseira nem de melancia geladinha.

Pensa: se a mãe come quando quer e quando pode, se muda de ideia no intervalo entre as tarefas ou, demoradamente, sozinha, no meio da tarde, não faz sentido passar feito um trator sobre o desejo e as transformações da criança que tem outros quereres. Mesmo assim, há dias em que a gente passa, lembra da fome no mundo, diz que está magoada, porque depois de tanto esforço, a má vontade prevalece. Que injustiça.

Respeitar o gosto do outro, o tempo do outro e o tamanho da fome e da vontade de comer é, quem sabe, engolir o choro e guardar o prato intocado. Quando a pessoa disser que está com fome, é só reapresentar. Eu como comida reapresentada. Nada errado nisso. Pior seria jogar fora, não é? É.

Penso que essa expectativa para que nossos filhos “raspem o prato”, mesmo se exageramos na porção, faz parte de um apego à abundância por padrão. O medo de que a comida falte ressoa nas embalagens pequenas (mais caras) ou grandes demais para quem vive sozinho ou pouco práticas na logística das famílias maiores (quase sempre sobra/enjoa/estraga etc.). Fora isso, há uma certa disposição ou simpatia pelo comer até dizer “chega” ou pagar para “comer à vontade”. Precisamos disso? Não. Como equilibrar a fome e a vontade de comer?

Depois de ficar uns dias longe da menina, repassando nossas DRs intermináveis até a próxima dissertação, a palavra respeito vive saindo da ponta do lápis. E foi a que mais apareceu, direta ou indiretamente, nas escutas e leituras dessa jornada para tentar entender porque muitas vezes a gente chora baixinho o prato de comida recusado ou se espanta com quem, na fila do mercado, compra duas fatias de presunto e vai embora. Minha amiga se recusa. Acha que é desaforo com o atendente, 100 gramas é o mínimo para ninguém se sentir ofendido. Já os bifes, bem, os bifes ela pede para separar nos pacotinhos. Bem embalados, terão lugar certo por tempo contado na geladeira que ela edita com a maior diligência. De um lado o que vence antes. Do outro, os outros.

Ao mesmo tempo, veja só, muitos de nós pretendem (e fracassam, ainda bem) achar “natural” o convite para pagar um preço fixo e comer à vontade em um rodízio de pizza, ou encarar um sanduíche enorme e de fatias de mortadela na espessura “não, obrigada”, só porque “todo mundo” diz que é bom (essa lição é velha: você não é todo mundo). Em uma situação dessas meu grau de desconforto é Stuck in the middle with you.

Penso que a chave, se é que tem chave, é respeitar a vontade, nossa e do outro, planejar, deixar espaço no armário para que as coisas respirem e circulem. Deixar faltar, se virar com o que tem, aprender a substituir e, não esquece: não se gastar para comer com quem (e o que) a gente não tem vontade. Ainda mais depois de um tempo. Ainda mais na crise. Precisa prestar atenção.

Tem um dado: “A família brasileira típica gosta de fartura na despensa e na mesa. Quando esse gosto pela abundância é combinado com a preferência pela comida fresquinha, temos um cenário propício a gerar elevado desperdício” (Fonte: revista página 22, de sustentabilidade, da FGV). Então ou autor lembra do dilema moral: segundo o IBGE, a insegurança alimentar grave diminuiu de 7% (2004) para 3% (2013), mas, ainda assim, 22% da população brasileira enfrenta algum tipo de dificuldade para conseguir comer. É. E entre os que podem escolher e os que não podem, há muitas camadas. Quando as ignoramos, achando que jogar no lixo, com raiva, a comida que o filho não quis é gesto desimportante de desabafo importante, bem, estamos gastando mais do que é necessário para desopilar o fígado e deixando de fazer o mínimo.

E o mínimo inclui não se angustiar com prateleira vazia na geladeira – melhor do que cultivar ovos esquecidos que desandam o bolo –; não fazer compra do mês toda semana; não estocar alimentos como se a neve fosse te impedir de sair de casa por um mês. Não neva aqui. O mínimo também é saber que comida fresquinha é bom, ótimo, mas bolinho de arroz fica uma delícia com o arroz de ontem – muitos pratos estão ainda melhores no dia seguinte, você sabe. Reapresenta o feijão gordo, a sensação é boa. Tudo isso, veja só, é bem mais fácil do que não se entristecer com o prato que foi deixado para lá. Treina. Respira. Coma, diga que acabou e que agora tem de entrar no fim da fila (!).

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