Fatias contadas

Eu passava férias de verão na casa de minha irmã, no Ceará. Fui ao mercado várias vezes e em quase todas percebi que muitas pessoas compravam frios fatiados por unidade. Duas fatias de presunto, por favor.

Semanas depois, em um sábado em São Paulo, na fila da padaria Barcelona, eu “precisava” de um chamego de manchego. Ao ver o preço do quilo, me perguntei de quantas fatias se faz uma noite boa. Desisti de contar. Como eu não queria encarar meus demônios esfomeados, pedi logo 200 gramas e isso saiu caro. Tive de deixar um pedaço do meu coração como garantia.

jules e jim

Mas… assim eu me sinto quando lembro que tem queijo manchego, que sobrou de ontem, fatia fina, para o café da manhã

Fue una noche sin sossego, no entanto depois da primeira mordida eu estava remediada e menos intranquila. Nada se perderia, afinal. Pude antecipar uma manhã de domingo especial com as lâminas que por ventura sobrassem. Acordei tarde, é verdade, porque demorei para dormir fazendo planos para quitar as contas do mês e levantar mais 200 gramas de aconchego em um futuro próximo.

Nas tais férias em Fortaleza, houve uma vez em que eu comprei meio quilo de cada. Queijo e presunto. Ia montar uma lasanha ao sugo caseiro, para um monte de gente. E eu queria sobrar de propósito. Sonhava em requentar uma porção no dia seguinte; quem sabe teria uma folga quando todos saíssem para algum passeio e eu, no fresquinho, lesse Fahrenheit 451 bem longe de todo aquele estresse de protetor solar e grãos de areia se insinuando por entre as páginas. A funcionária fatiava minhas divagações, interminável e distraída, e eu presumia o hábito daqueles dois que comentei no começo deste texto: levar só o que iam consumir.

De cara, estranhei. Depois achei simplesmente justo e cheio de sentido. Queria imitar. Quem sabe na próxima. Outras pessoas encomendaram cinco, dez, uma dúzia. Merenda rápida no meio da tarde; geladeira quebrada; véspera de viagem; dinheiro contado; amanhã é outro dia; há que se evitar algum encontro desagradável, no futuro, ao limpar o refrigerador.

Em outra temporada, era primavera de trabalho em Porto Alegre. Tentei pedir para fatiar na hora o queijo lanche. Nada. Padaria, supermercado e empório. As bandejas quase sempre estavam prontas, tamanhos pré-estabelecidos para uma certa conveniência. É escolher a que serve melhor aos propósitos e, com sorte, poder confiar na etiqueta que especifica a espessura (informação importante, penso): fina, média e não, obrigada.

É provável que fatias contadas não pareçam tão libertadoras até que nossos gestos sejam profundamente limitados pela circunstância.

“Na maior parte da Europa, se vai ao mercado da esquina comprar duas fatias de presunto. Amanhã, quiçá, mais duas. O vendedor não estranha vender, o comprador não estranha comprar. As quantidades que adotamos como “padrão” são absurdas em tempos de crise, ou mesmo fora deles, num país miserável como o nosso (…)”, escreve a empresária Cristiana Beltrão, do Bazzar, jogando uma luz no mundo das medidas industriais (e domésticas).

Eu pergunto: aí, onde você vive atualmente, como faz o pedido dos frios? Por fatia bem fininha, por gramas calculadas, por padrão? Mudaria o hábito para economizar e evitar o desperdício? Costuma pensar nisso quando compra alimentos de modo geral?

De onde será que vem o que faz com que em parte nossa sociedade “normalize” uma certa “abundância desnecessária” e se espante diante da prática racional das fatias contadas? Será que nos falta uma certa cerimônia? Uma pegada de consumo mais realista e/ou respeitosa?

Não sei.

Caminhos mais equilibrados existem. Há os abertos e os que precisamos abrir.

Por favor, sobre as pequenas grandes decisões que podem nos ajudar a ganhar a briga contra o desperdício, deixe seu depoimento, mensagem, sugestão, opinião e/ou dúvida nos comentários deste post. Pode ser sobre os frios ou qualquer outra coisa que faça a diferença na rotina. Para isso, basta clicar no balão vermelho com um sinal de + (abaixo, à direita).

Se preferir, mande um e-mail para vivizandonadi@lembraria.com.

Pela atenção e tudo mais, muito obrigada.

4 pensamentos sobre “Fatias contadas

  1. “É escolher a que serve melhor aos propósitos e, com sorte, poder confiar na etiqueta que especifica a espessura (informação importante, penso): fina, média e não, obrigada.”
    Construções de texto bem-feitas são joias preciosas. Que texto bom. <3

    Curtido por 1 pessoa

  2. Seria ótimo poder ser assim. Na minha vida soteropolitana, que não volta mais, meus lanches podiam ter esse detalhe.

    “Por favor, 3 fatias médias de presunto, sem capa e 1 com”
    (já imagino o afago deste com)

    Contento-me com pedir em gramas quando encontro, mas pelo menos a maioria dos lugares em que compro as bandejas são mais rebeldes e cada uma tem o seu valor. Aceitável, mas agora fico com saudades de poder escolher mais.

    Curtido por 1 pessoa

  3. Então, por aqui por essas bandas a gente só pode comprar fatiado embalado (a vácuo, de preferência). Porque é muito mais higiênico! E as regulamentações da UE, que apenas a Finlândia obedece, diz ser falta de higiene fatiar frios na frente dos consumidores nos mercados. Ou seja, não consigo comprar duas fatias por aqui.

    Curtido por 1 pessoa

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