Escrever um dia (sextas que falam)

Sobre escrever o que diz um dia, há um ano havia outro janeiro.

O computador só quebrou depois. Foi o tempo de eu entregar o trabalho, sem madrugadas. A menina colaborou brincando.

Adoraria ouvir com mais regularidade o som das moedas caindo na latinha. (Carinha de Lucy satisfeita depois de atender o Charlie Brown na barraca a 5 centavos o conselho). Usar salto alto, vestido, a chave de um segredo na máquina do café ruim. Essas coisas. Hoje, porém, a fortuna foi não ter e com ela comprar uma dose de tédio doméstico melhorado pelo verão fajuto.

Pela manhã, arrumamos as camas e jogamos Uno. Como eu ganhei e não deixo roubar (nunca), sou malvada até o fim. Ótimo.

Nos intervalos da nossa maratona combinada de Toy Story, ela canta, dança e pinta. Eu lavo lençóis e então esfrego os copos e os pratos para pensar na vida (e não admitir nenhum vestígio que deixe aquele cheiro de ovo). Só vou chorar no terceiro filme – uma prova para quem lacrimejou na sala do cinema, vendo Charlie Brown ser Charlie Brown (…).

Transformo as cebolas em miudezas, preparo o molho de tomate – bastante manjericão sim, por favor -, leio e monto uma lasanha enorme, porque eu sei sobrar. Tenho medo de errar para menos.

Comida no forno (não, eu não abri a massa com todo o vigor sobre uma pedra de granito. Comprei pronta, grão duro, sem ovos), penduro a roupa para secar. Leio um pouco mais, tiro o lixo, escrevo.

Para ter certeza de que a lasanha estava ótima (não somos o Buzz, que tem certeza sempre), repetimos. Estamos convencidas, “tristes” e de barriga cheia. E fazemos tudo de novo no jantar.

Sei que vou adormecer depois de virar o colofão (meridien, pólen soft) do livro lindo que estou acabando hoje (ou quase). Ela vai dormir também, assim que terminar de ouvir umas fábulas e chegar a um acordo interno: a culpa da bagunça é dos brinquedos em universo paralelo ou do Saci? (dela, nunca, exceto nas minhas broncas. Tudo é mágico, não percebo?)

Não gosto da ilusão nervosa dos sábados, promessa vazia; sou feliz aos domingos de manhã poucas horas antes da angústia habitual. Sextas delicadas como hoje, porém, são coisas que falam. Não sei o que, que não aprendi a ler os dias. Ainda.

***

(era outro janeiro e foi boa a sorte pelo tempo que durou)

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