O peixe que é caminho

A questão é de trilha (um peixe), de saudade do que eu ainda não comi e de cultivar um espírito aventureiro. Recalcular a rota. Por que não? Não sei.

Nesses primeiros dias do ano ímpar de 2017, a confusão de prazer e serviço está um tanto acentuada. Depois de férias parciais, voltei para São Paulo e me deixei levar pelo refúgio que a cidade vazia oferece (ou pretende oferecer) em seus janeiros abafados. Escolhi no mapa o primeiro restaurante do ano, Hospedaria.

Assim, feito turista doméstico, peguei o caminho da Mooca perto do Catavento, do Museu da Imigração, da pizzaria São Pedro, da Di Cunto, da padaria Carillo e do Don Carlini. Escrevendo, agora, me sinto foneticamente transportada para a sucursal de alguma narrativa napolitana de Elena Ferrante. E isso também vai passar, eu sei.

Minha ideia era começar a preencher o caderninho de visitas, aproveitar a atmosfera de “todos fora, menos eu” e inventariar as primeiras garfadas no restaurante aberto no fim do ano passado. A Hospedaria, ao que parece, pratica sabores de uma infância no bairro – o dono cresceu na Mooca, neto de italianos.

Arroz de forno ou uma massa fresca e rasgada ao molho bolonhesa? “Escarpeta” no molho de tomate? Parece que tem de entrada, para passar o pão no prato e enxugar até a última gota. Assim, de cara.

Me faltou ou sobrou sorte, porém, e acabei em um outro lugar, antigo, com o conceito totalmente diferente, a Cantina do Marinheiro. De certa forma, os dois ajudam a olhar o momento da Mooca: novos endereços, velho galpões reocupados e renovados, repartem o espaço com destinos tradicionais e que, muitas vezes, também ganham ares novidadeiros. Ou não. Vejamos a Cantina em que fui parar. Fundada em 1942, escolheu não inventar moda e ficar na dela. Já vou falar disso.

Antes, algumas conclusões do meu passeio com almoço tardio:

1) primeiro, é preciso se cuidar nos trópicos nas capitais de concreto, longe da praia, das cachoeiras etc.. Sempre ligue antes de sair de casa para ver se o restaurante não está de férias no verão; eu subestimei a “baixa temporada” e dei com a cara na porta do número 82 da rua Borges de Figueiredo, o endereço da Hospedaria.

2) segundo, é preciso estar disposto a recalcular a rota. Perto das três da tarde, muitos lugares já estão encerrando sua função de almoço, então fui para a avenida Alcântara Machado, a pouco mais de um quilômetro dali, no limite com o Brás. Do lado de fora, um deserto pós-apocalíptico e um banco que parecia cenográfico e um estacionamento que só tinha catraca para sair. A Cantina não está nem aí com seu espanto, tem estacionamento próprio, com acesso na travessinha anterior, decoração “náutica” e existe sem intervalo desde o almoço e até a meia-noite, um dia depois do outro (fecha mais cedo no domingo e na segunda).

3) turista em casa, nesse vaivém, tem dia que a gente sente uma estranha saudade do que ainda não comeu. Foi ontem. Quando abri o cardápio, me entusiasmei ao ler uma parte da história da casa que falava de um tal peixe trilha*, que eu não conhecia. Um pescado miudinho e avermelhado, que teria sido a maior pedida na década de 1960. Era fritura sequinha para acompanhar cerveja. A fome temperando minhas vontades.

Como não era meu dia, minha vida, de sorte, o garçom explicou que já tem um bom tempo que a trilha saiu da carta. Não é sempre que tem no mercado e por garantia o restaurante ampara sua cozinha em um estoque mais previsível. Escolhas. Não navega ao sabor das marés, suponho. Pena, falta trilha, sobra tilápia onipresente, aquela que se reproduz animadamente e é barata. Não desanima, leitor. Você chegou até aqui e não fica à deriva. A casquinha de siri não ofende ninguém. Pedi bolinho de bacalhau e caldeirada de frutos do mar com dourado. Ambos gostosos. O músico Guarabyra recomenda o polvo à dorê de empanado crocante.

***

Bem alimentada, pronta para outra, suponho que não será difícil dar um fim à “melancolia”. A Hospedaria, me informei, reabre na semana que vem. A trilha? Seguirei. É comprar uma porção para fritar em casa e ver o que ela me diz. Sabe como faz sem partir? Encontrei esse relato tão bonito da Neide Rigo. Volto, também, para dizer que “sim, deu certo” ou “não, quebrei o peixe”.

Mais vestígios do fluxo de pensamento: cultivemos o espírito de viajante curioso também em nossas cidades, em nossos lugares de estar. O acaso levou a errante para uma velha novidade. Não conheceria a trilha se não fosse essa trombada.

É isso. Até a próxima, tudo de bom e lembrem-se: tentem a sorte no bolo de Reis, porque até meia-noite é hoje. Inventem essa sorte, se precisar. Qualquer problema é só chamar o Síndico, Tim Maia, que, como sabemos, provavelmente enviará a Vitória Regia em seu lugar, porque ele quer sossego. Estaremos otimamente arranjados.

***

*O peixe trilha tem esse nome porque no mar quem vai atrás de seu cardume encontra camarões no outro extremo, né? Camarões dos quais o trilha se alimenta e que transferem para ele sabor e cor. Quem já provou diz que um faz lembrar o outro. A conferir.

 

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