Ano ímpar

Pretendo terminar 2016 e começar 2017 com suave coceira na ponta do nariz. Bolhas vão espocar de um copo largo de cristal e me atingir antes mesmo do primeiro gole. E, se eu tiver vergonha na cara, o inventário do que eu vou comer e beber no ano ímpar de dois mil e dezessete começará bem e assim: “Três taças do tipo madame Pompadour cheias de espumante bruto”. Pode cair o mundo ao redor. Os cacos eu vou varrer depois.

Me parece boa a resolução de adaptar o método do romancista francês Georges Perec (1936-1982), de quem eu nunca tinha lido nada até abrir o livro Listas Extraordinárias. Lá estava um de seus textos, na página 21: “Tentativa de inventário dos alimentos líquidos e sólidos ingeridos por mim no decorrer do ano de mil novecentos e setenta e quatro.”

Perec começou escrevendo que ao todo foram nove caldos de carne, uma sopa gelada de pepino e uma sopa de mexilhão. Depois de treze Beaujolais, quatro Beaujolais Noveau e nove Côtes du Rhône, quatro Guiness e mais um monte de outras bebidas, tortas, crepes, bolos de chocolate, tâmaras, saladas, cogumelos, alcachofras e etc. etc. etc., terminou com 36 vodcas, quatro uísques, “N” cafés, um chá de ervas e três águas de Vichy. Seu inventário não foi cronológico, e sim por agrupamento de assuntos. O meu, se for, será.

***

Desejo que tenhamos em 2017, sempre que possível, na alegria e na tristeza, um contato com as borbulhas festivas, sparkling life no contentamento e na melancolia. Que vejamos o mundo de dentro das nossas cozinhas, controlando a chama do fogão de casa – porque outras coisas são mais difíceis de dominar.

Que sejamos mais criteriosos ao sair. Ao comprar ingredientes e ao escolher aonde ir. Se eu for comer fora, quero poder resgatar uma certa espontaneidade. Parece bom poder passar na porta de um restaurante, por exemplo, e entrar, por gosto, sem precisar riscar o chão para conseguir uma mesa. Sem precisar baixar aplicativo de reserva. Em caso de lotação esgotada, posso desistir e tentar outro lugar ou aproveitar a espera para desapegar do tempo e simplesmente es-pe-rar.

Que façamos mais e mais receitas junto a pessoas que amamos e que possamos viver em sua inteireza o dia de reunir amigos e o dia de ficar bem sozinho, sem julgamentos.

Tomara que em 2017 consigamos fazer vingar aquele fermento natural – eu matei uns três só neste ano, mas ainda não desisti – e assar pães que nós mesmos amassamos. E, quando não der vontade ou não for possível, que possamos contribuir com quem o faz. Comprar do pequeno que cozinha na vizinhança. Que ninguém se ofenda, contudo, se resolvermos pegar o tapete voador que nos convier para provar um sabor em outro canto da cidade, do estado, do país ou do mundo. Menos roupa apertada por padrões impostos. Menos sensação de estar “errado” ou “devendo”.

E vamos, quem sabe, como disse lá em cima, inventariar o que comemos, nossos hábitos e descobertas com o objetivo de guardar, cuidar e contar o nosso tempo. Enquanto mordemos uma fatia de memória, lemos também os tempos outros. Os tempos dos outros. Vamos resgatar as histórias de cozinha da nossa família, escutando e escrevendo, gravando, não sei, o que os mais velhos têm a dizer a fim de não deixar que se perca esse saber, um “saber de si”.

***

Mario Quintana escreveu que “O passado não conhece seu lugar. Está sempre presente”. Verdade. Comemos não só para nos alimentar, e sim para saber de onde viemos e para onde vamos. Que venha, então, 2017. Passaremos por ele (e acho que com isso e a nossa bagagem é capaz de ele estar apavorado e fugindo, daí a demora em se entregar). Vamos comer esse novo ano em prato fundo e com colher de sopa… e espantar o mau-olhado com o Banho de Manjericão escrito por João Nogueira e Paulo César Pinheiro na voz de Clara Nunes.

***

Hoje foi ao ar o último Questão de Gosto do ano, um trabalho que melhora essa minha/nossa louca jornada de comer, ouvir, ler, pensar, escrever. Falar.

Aprendendo e gostando. Assim mesmo, no gerúndio.

Semana que vem tem mais café coado e água com gás, ou como preferir, mas já será em ano ímpar.

Um beijo, tudo de bom, desculpe alguma coisa e obrigada. Escute aqui.

 

2 pensamentos sobre “Ano ímpar

  1. Acho a história do inventário sensacional…e que venham invenções e muita criatividade na cozinnha…sim com música e citações e poesias, pois com tudo isso a comida tem mais sabor

    Curtido por 1 pessoa

  2. Pingback: O peixe que é caminho | do que eu falo quando eu falo de comida

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