Crônica de uma ceia anunciada

Jamie: [in English] It's my favorite time of day, driving you Aurelia: [in Portuguese] It's the saddest part of my day, leaving you

Jamie: [in English] It’s my favorite time of day, driving you
Aurelia: [in Portuguese] It’s the saddest part of my day, leaving you

Escrevo este texto me movendo. Talvez algumas pessoas interpretem o que estou fazendo como uma espécie de dança. Bill Nighy canta em looping a versão natalina de Love Is All Around (The Troggs, 1967). É da trilha do filme Simplesmente Amor. Meu eggnog, meu pudim de Natal, meu pão com açúcar e manteiga da temporada.

Christmas Is All Around, actually. A temperatura despencou nos trópicos – não vai durar, eu sei – mas até neve temos neste bloguinho. Vamos aproveitar o momento e let it snoooow. Dance você também com este trecho mal e mal cortado.

Tirar uma tarde preguiçosa para ver Love Actually/Simplesmente Amor (2003) é uma tradição dos meus natais há alguns anos. Sozinha ou junto de uma amiga que também é apegada ao filme, sempre me largo para assistir à comédia romântica de histórias ora inverossímeis ora totalmente possíveis e amarradas pelo texto de Richard Curtis, que é também o autor do roteiro de Quatro Casamentos e Um Funeral.

De fato, o Natal está por toda parte. Quero que vá tudo para o inferno, cantaria o Roberto no especial de fim de ano. Agorinha, apesar de tudo, ele (o Natal) está aqui. Silêncio eloquente na ansiedade social, frio na barriga, vontade de sumir, barulho nervoso no trânsito, fechadas agressivas, olhares atordoados diante das prateleiras de panetone. Há cartinhas para o Papai Noel espalhadas pela casa – um vaivém de vale-estes, porque vai que ele não acha o intercomunicador do seu super herói? Pais nervosos, duendes, lutam pela última Caloi Frozen com rodinhas do estoque. Estamos todos correndo na direção da ceia perfeitamente imperfeita. Sem GPS.

Porco assado, peru recheado, frango cheio, farofa molhadinha ou sequinha. E ainda tem panetone, rabanada, pavê de bolacha “champanhe”, bolo de nozes. O que, afinal, não pode faltar? “A festa das festas” tem essa responsabilidade simbólica de atribuir sentido a um tempo que deixa tanta gente deprimida.

A ceia concentra uma carga emocional explosiva. Reúne gente que se arruma à mesa por desejo ou por obrigação ou por algo entre os dois. Faz refletir sobre pertencimento. A refeição do tipo maravilhosa, de pratos muitos e caprichados, ou libertadoramente improvisada, longe de tudo e ao redor de uma pizza ou macarrão instantâneo, é uma grande e esperada confusão. E se fôssemos fazer a fotografia de um momento, estamos assim: na fila do banco, atrás de um computador, nas marginais expressas e locais, correndo em sua direção. Quem vai ficar com a coxa? A asa? O ossinho da sorte?

Talvez o melhor modo de atravessar esses dias seja encontrar o nosso refúgio particular. Love Actually é um lugar de paz. Questão de gosto. Pode fugir, sair da cidade, se enfiar num esconderijo ou enfrentar aquela luz de elevador sobre a família amontoada. A sua ou a de outra pessoa, caso queira experimentar o papel de forasteiro.

No fundo, sabemos que nas casas em que a tradição é observada (e seu caos, esperado), são anos de repertório e trabalho pesado das cozinheiras e dos cozinheiros intuitivos. Avós, tios, irmãs. A “regra” básica é fazer para sobrar, é tentar não pensar no tudo certo e nada resolvido, é fingir que não vê os impertinentes, agradar as crianças.

Comprar frango e tender de última hora? Comum. Alfinetar a parentada? Normal. Começa a assar tudo na véspera e convoca a contribuição geral para compor o mosaico das comidas à mesa. Nunca fiz, mas parece que funciona. A fartura é um propósito. Eu levo os vinhos.

***

Quando eu era menina, nossos natais eram assim calorosos nas casas dos avós e os conflitos e aflições do adultos pouco nos atingiam. Era bom ficar com os lábios brilhando de comer frango assado com pele bem gordurosa. O tempo passa, as configurações mudam, a gente se finge de míope emocional (ou não) e as festas das festas são outras. O conceito de refeição perfeita se mostra elástico, flexível.

Houve aquela vez em que fiz ravióli com molho de tomate para uma ceia diminuta (meu pai, B., minha mãe e eu). Me vi em apuros quando resolvi cozinhar para deixar a mãe sossegada naquele Natal que era por motivos muitos bastante especial para todo mundo. Simplesmente tenho uma dificuldade absurda de fazer comida para ela que, em uma só pessoa, guarda multidões (mais do que quatro participantes é jantar de multidão, aliás). Enfim, mesmo entre poucos e bons eu tive medo de assar leitão e fazer farofa úmida. Comemos massa recheada do pastifício. Bebemos um vinho bom e ficamos em paz. Foi muito especial e sem nenhum misterioso superfrango cheio. Sem peru. Sobre peru, aliás, eu pouco tenho a dizer.

Já o escritor e crítico literário Mário de Andrade (1893-1948) o fez de modo brilhante e me deixou com vontade de comer fatias no conto Peru de Natal. Nesse relato em primeira pessoa do personagem Juca, o autor descreve sabores e humores da ceia em família depois de cinco meses da morte do pai. Um pai descrito pelo filho como austero/pão duro/desmancha prazer (enquanto era vivo, frutinhas secas com castanha era comida de Natal). Juca/Mario propõe que finalmente assem um peru, tenro e suculento, e façam farofa molhadinha de miúdos, o que provoca sentimentos conflitantes nas mulheres da casa e no próprio Juca, comovido ao ver a mãe finalmente tirar um pouco do peso do luto de seus ombros. A história é maravilhosa. Leia sobre a receita de Mário e saiba mais sobre consoadas (que palavra bonita), ceias e perus de outros tempos nas Notas de Canapé e nas Verdades Inventadas do nosso Lembraria.com.

Bom Natal para quem é do Natal; bom desnatal para quem prefere não.

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