Questão de livros

Livros de comida

Do verbo livrar, o livro livra o leitor e o caminho

Chegamos ao Questão de Gosto de número 30, o que não quer dizer nada. Só achei que, pela quilometragem de palavras rodadas e os minutos tombados ao sabor da paciência dos ouvintes, era hora de dar uma arrumada na biblioteca – a bibliografia flutuante que tem guarnecido conversas e inspirado reflexões aqui, ali e por toda a parte.

Para um boletim que vira e mexe celebra comidas e costumes “à moda antiga”, abrimos com Charles Aznavour e seu convite para dançar in the old fashioned way. Não consigo resolver se prefiro no Carnegie Hall, nos Muppets ou no filme em que ele canta para a Babette que, na ocasião, não é Babette. O Netflix deveria subir todos essas adaptações da Agatha Christie…

Como estava dizendo antes de divagar ouvindo Come close where you belong/Let’s hear our secret song, começamos uma lista no Lembraria. É trabalho em construção, mesmo. Quando o quadro na rádio estreou, em maio, eu disse que era sopa de pedra. E assim vamos. Sopa de pedra para todo mundo.

Eu não costumo gostar, entre aspas, de livros de receita – não me entenda mal: eu aprecio, só não é o meu estilo preferido no pensar a comida e me dá nos nervos ver aquele monte de capas gritando X receitas com um ingredientes só, X receitas para mudar a sua vida, X receitas para viver para sempre. Só que foi por causa da volta (e da chegada) de bons livros de receita em minha mesa que a tal lista de livros de comida entrou para a pauta.

Durante um bom tempo, usei o livro amarelo de Rita Lobo (Panelinha, Receitas que Funcionam). Eu o levava para cima a para baixo e um dia, no meio do caminho, o livro (que não é pequeno) se perdeu de mim. Não comprei outro. No fundo, achava que eu o encontraria ou que ele me encontraria. Quem sabe um Google doméstico seria inventado e eu descobriria que ele ficou esse tempo todo em casa, em alguma caixa de mudança nunca aberta – tenho algumas –, mas, não rolou.

Assim, passei a usar o site e o celular que, no fim das contas, prestava melhor para o supermercado na hora de comprar os ingredientes. Na cozinha, sobre a bancada, eu abria o notebook e digitava “bolo fofo de chocolate panelinha” e quase tudo parecia possível. Foi ali que aprendi a peneirar todo o pó da receita antes de incorporar os líquidos e formar a massa que eu gosto de comer crua, mas isso não vem ao caso.

Nesta semana, uma amiga me presenteou com o livro perdido em edição atualizada. Sim, eu sei que tenho muita sorte com amigas. E não foi só: ela me deu alguns outros que eu ainda não tinha, da mesma autora. Em uma madrugada de insônia o virar das páginas também soprava o sono para longe e percebi que esse jeito descomplicado de propor ideias e modos de fazer são o que um livro de receitas tem de melhor: 1. comidas possíveis e de execução bem explicada; 2 medidas que posso compreender; 3. combinações que fazem sentido; 4. Inspiração. Essa última já vale mesmo se você for atrevida/o o suficente para apenas ler, ver as fotos, respirar fundo e sair para jantar. Ou fazer, vá lá, do seu jeito. Não estamos em nenhum reality show deslumbrado e cheio de estereótipos querendo provar para alguém que merecemos estar em algum lugar. Somos gente comum livre para fritar em quanta manteiga quisermos.

Mas o que eu ia falar é sobre os livros de comida e, pelos cotovelos, sempre me escapam outras histórias. Então, vá até o Lembraria por favor e veja como está a lista. Palpites? Obviamente há coisas que eu não listei por motivo de vamos preencher aos poucos ou ainda não ter lido/por desconhecimento. Tem muito o que ver e ler e comer e fazer. Ainda.

Vou in the old fashioned way, como cantou Aznavour, abrir um livro por vez. Sem correria.

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