Lugar-comum (e quentinho)

Quer dizer que eu me contradigo? Pois bem, então me contradigo
(eu sou vasto, eu abrigo multidões)
Walt Whitman

Buscar conforto na comida é um clichê – um clichê adorável e eficiente para fazer circular energia e converter essa energia em sensação de abraço apertado. Há uns dois anos, tentei escrever um texto rabugento sobre isso e no fim eu já estava virando os olhos e dizendo coisas do tipo “vinho Gamay, gamei”, sem medo algum de me entregar ao lugar-comum e quentinho. Era, aliás, muito bom estar ali.

Sinto que 2016 é como um céu cheio de super luas, estrelas por um fio e balões de pensamento estufadinhos de espanto que surgem e estouram a todo tempo. Formação de tempestade constante. Nesse quadro, nós somos os gigantes tentando segurar tudo isso sobre os ombros, não deixar cair, mesmo abatidos pela tristeza. Só que, ainda que estejamos dividindo a tarefa, faria bem se cada um tivesse um Hércules para render o peso e ajudar a sair dessa posição insuportável. Ao menos um pouquinho. Heavy stuff.

Foi por isso que hoje eu fiz questão de listar ideias para encontrar (gerar e distribuir) conforto por meio da comida e da vida à mesa. Talvez não fique tudo bem, realmente não deve ficar, mas melhora ao menos por um pouco.

A ordem dos fatores não altera o produto. E cada um faz o que e como preferir para atribuir alguma leveza aos dias. Em geral, essas coisas funcionam comigo (juntas e à parte):

***

  • Fazer um caldo/cozinhar o que tiver vontade de comer, compartilhar, doar

Para o caldo, no caldeirão mais fundo, eu coloco uma cebola partida ao meio, dentes de alho, cenoura, batata, alho-poró (ou salsão/aipo), tomate. Sobre todas as coisas, vai um raminho de tomilho. Tempero com sal e pimenta e talvez cúrcuma. Preencho com água e quando subir a fervura e começar a liberar a magia eu cozinho em fogo brando por até uma hora, quando é preciso separar os legumes já bem macios e coar o caldo para ficar translúcido e brilhante. Panela sempre destampada. Deixo reduzir por mais um tempo – sem os legumes, agora. Retirá-los é importante para que não se desmanchem. A gente quer que o líquido brilhe e não fique turvo.

Os cheiros e barulhos da fervura já são restauradores. Um caldeirão no lume baixo é sinal de que as coisas estão em seu lugar. Para confortar quem se recupera de uma gripe ou de alguma aflição, depois o brodo pode virar sopa. Congelado, em cubinhos? Será valioso no futuro ao fazer um risoto. Serve para outros preparos também.

E tem a questão simbólica. O caldo, na culinária, não importa se técnica ou intuitiva, é uma base. Precisamos de uma base para não ceder. Naveguemos nela.

***

  • Ler um livro improvável
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O projeto gráfico da capa é de Mariana Newlands. Em papel, só é encontrado em sebos. Para Kindle, custa um pouco mais de vinte dinheiros

O verbo dos livros é “livrar”. O livro livra o leitor e o caminho, abrindo passagem no labirinto particular. E há mesmo algo de especial nos livros pequenos e nos textos avulsos: eles deitam no peito uma sensação de completude, de ir até o fim. É uma sensação parecida com a de cozinhar a refeição, larga, grande e certa, e ainda deixar (ou encontrar, depois de tudo) a pia limpa para o cafezinho por vir. A vastidão dos chamados livros curtos está na capacidade de nos dar muito em poucas páginas.

Minha sugestão é um livro de receitas nada ortodoxo. Não tem medidas e os ingredientes são muitas vezes impossíveis. Chama-se Livro de Receitas para Mulheres Tristes, do colombiano Héctor Abad (Companhia das Letras). Abad dedica o livro para as mulheres, em especial suas “seis mães” – ele tem cinco irmãs :)

O livro é uma coleção de notas supostamente infalíveis para questões de amor, dor e ausências várias. Mistura delicada de ironia e humor fino. Lê-se em duas horinhas com um sorriso no rosto diante dos desafios e das ponderações. Para a mulher que quer que os olhos brilhem e atraiam todas as atenções, o autor propõe lavar com uma loção mágica que contém sal  (…). Para outra, sugere ir até o quintal e colher 28 folhas de melissa e fazer uma “poção”. Em dado momento, parece uma gincana o que uma moça precisa fazer para que seu companheiro, praticante de silêncios, fale com ela. Então, o autor alivia a tarefa: se tudo isso parece complicado demais, lembra do seguinte: “se quiser que outros lábios sejam generosos, abra também os seus”.

E, ele avisa logo de cara para não ser levado muito a sério, exceto a voz dos textos:

Ninguém tem a receita da felicidade. Na hora infeliz, de nada valerão os mais elaborados cozidos de contentamento. (…). Constatei que em minha arte poucas regras se confirmam. Desconfie de mim, não cozinhe minhas poções se a sombra de uma dúvida a assaltar. Mas leia este falacioso ensaio de feitiçaria: o encantamento, se valer, nada mais é que seu som – o que cura é o ar que as palavras emanam.

A saber: Livro de receitas para mulheres tristes, em papel, só se encontra em sebos atualmente. Mas a versão para Kindle é fácil de achar. Vale.

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  • Distribua presentes de comer e de beber; divida uma mesa com alguém que você goste. Pode ser um café da tarde, um jantarzinho frugal, um piquenique em que cada um contribui com um bocadinho, uma receita. Ganhei de amigos um pote de caponata que eles comeram e gostaram muito quando estavam em Siracusa, na Itália. Trouxeram para mim. Zerou todas as minhas referências no assunto. Jantei caponata no começo dessa semana, com um pedaço de pão. Gamei também.

***

  • Por fim, faz bem dar uma chance ao acaso. Tente as nozes fingidas e, se der certo, manda para mim, na Rua da Memória, número esquecido. “Lembram cajuzinhos, que, na essência, também são cajus fingidos: fingidos no formato (imitações de cajus sem cajus) e no conteúdo (em vez de castanha-de-caju, levam, já oficialmente, amendoim)”, conta a Vivi Aguiar.

A base é de nozes moídas e gemas, cozidas em fogo brando com leite condensado ou com amêndoas, açúcar, leite e farinha de trigo, até o ponto de enrolar. Antigamente, sobretudo na primeira metade do século 20, ia para uma fôrma especial, com moldes estriados. Ali, prensada, a massa ficava com as marcas da casca de uma noz. Pareciam nozes perfeitas e durinhas, mas na boca eram macias e doces. Daí o nome.

Noel Rosa escreveu, no samba O Orvalho Vem Caindo: “Minha terra dá banana e aipim, meu trabalho é achar quem descasque por mim.”

Eu, daqui, estou só procurando quem faça um docinho de nozes por mim. Se quebrar nozes for muito complicado, pode ser de amendoim.

Beijo, obrigada e tudo de bom,

Vivi

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