Tomates vermelhos cozidos

Para dias miseráveis ou em que novas pedras surgem mal você acabou de quebrar uma porção, o molho da Marcella Hazan não resolve nada. Me faltam, porém, todos os recursos para negar que faz bem aos nervos, porque gratificante, gostoso e aveludado. E perfuma a casa com força. Uma coisa que dá certo, que se transforma bem. Não é pouco.

A receita está fora dos parêntesis: (em uma panela boa, daquelas que você gosta,) coloque um bom pedaço de manteiga, uma cebola inteira cortada ao meio (e virada para baixo), tomate pelado. (Eu coloco três dentes de alho). Amasse delicado e esqueça em fogo baixo por 45 minutos. O quanto quiser de sal e de pimenta (prove toda vez que passar em frente ao fogão; para isso, use sempre uma colher diferente e atire-a na pia).

Hoje a fome era tanta que ele se apresentou já aos 25, macio e sem dar um pio, apenas e talvez tenha ficado melhor do que nunca. Sem ressentimento pelo alumínio acobreado. Tirei a cebola (e o alho) como pede a receita, mas ninguém é obrigado a fazer isso. Coloquei-os no pequeno pirex dos que foram sem ter ido. Limpo o prato com o pão.

***

Tanta gente amassa pão, tece fios e mais fios de massa de macarrão, estica lasanha e pastel. Basta dar uma volta na calçada da internet e espiar pelas janelas abertas. Tem bolo trabalhado e doce de ponto demorado que precisa ser vigiado por longas horas. Massa-folhada (paciência). A pessoa faz o próprio queijo, o próprio iogurte. A ricota. O bacon, a linguiça, a pizza. Cria o porco, lhe dá comida e um nome, mata e escreve ‘gratidão’ na legenda da bisteca (ah, o fio. Da vida).

Se a gente não toma distância para perceber que eles são todos cacos de mosaico e que cada um faz um pouco e que nós somos um caco de mosaico visto por outro…, se a gente não pensa nisso, começa a crescer no peito mais uma angústia contemporânea: a angústia do eu não sei fazer. A neurose da subsistência artesanal é mais uma enorme e desnecessária bobagem. Depois da competição-padrão entre os que fazem mais check-in de gosto e desfilam por aí feito espeto de churrascaria, parando só para fotografar um prato (comer é superfluo), vem essa coisa de fazer, plantar, costurar, comer, amassar, fermentar, preservar, cultivar e escrever bobagens como esta que você está lendo agora.

Ontem eu fiz “meu próprio caldo” de legumes. Lindo, dourado, translúcido. Seu destino era um risoto que virou lástima. De cara, dissimulou seus defeitos. Brilhante, amanteigado e amontoado no meio do prato. Um gosto bom. Cinco minutos depois, porém, quando a gente não consegue evitar repetir, destampei a panela. Ele tinha crescido, continuou a cozinhar em fogo morto. Secou. Se fosse conto macabro, cada grão estaria vivo e me mataria de remorso pelas mancadas que eu tenho dado até sem querer (algumas são sem querer, realmente). Não adianta chorar pelo risoto desandado. No outro dia, de noite, chove. E você faz um molho e não fica tudo bem. Só gostoso.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s