Habilidade manual: datilografia

“Dizem que podem tirar tudo de um homem; a riqueza, a saúde e tudo mais. Mas não as habilidades manuais. Depois que você aprende, é para o resto da vida.”

(epígrafe do lenhador)

Almocei. O tempo me faltava e eu não cozinhei. Foi só uma parada. No piquenique all by myself, abri uma cerveja puro malte, cortei ao meio um pão francês e juntei fatias super super super finas de mortadela (assim foi feito o pedido no balcão). E como eu não queria me concentrar demais em mim, nas escolhas de agora e nas incertezas de daqui a três segundos, resolvi comer vendo mais uma parte do documentário Happy People – A Year in the Taiga (2010), de Werner Herzog.

É sobre a vida das pessoas em um vilarejo na Sibéria, um modo de viver tradicional subsistente e quase inalterado há séculos.

“Dizem que podem tirar tudo de um homem; a riqueza, a saúde e tudo mais. Mas não as habilidades manuais. Depois que você aprende, é para o resto da vida. Você concorda? E você aprende com os outros também. Um pouco aqui, um pouco ali. Dizem alguma coisa, você aprende, não dá para reinventar a roda.”

Essa é uma fala do lenhador, que diz isso enquanto explica a diferença entre abrir um veio perfeito no tronco de uma árvore usando uma cunha de madeira ou uma serra. Naquele bosque, saber usar uma boa cunha dá sentido para a vida.

Quando terminei de comer e beber, respirei fundo. Mais fundo. Tinha de voltar ao meu próprio bosque, o das palavras. Minhas habilidades manuais se resumem à digitação – muito boa, por sinal, porque nasceu na datilografia.

Sem saber costurar, tricotar, atravessar lago congelado sobre um trenó ou abrir um tronco e caçar na floresta usando um daqueles gorros de castor do tipo Daniel Boone (?!), mas ainda assim (supostamente) alimentada (e contente, devo dizer!) com mortadela não italiana e sem chancela de slow food, devo admitir: eu não resistiria um dia na Taiga. É duro, mas é o que é.

Conformada, derreti um pouco de queijo de coalho, aqueci a banana prata na frigideira e improvisei uma cartola, o doce pernambucano. Coei café e agora estou aqui, em dia nublado de temperatura amena (meu tipo de tempo bom), agarrada a uma nota de canapé.

A cartola é para matar a saudade de uma refeição no Recife, que será lembrada hoje no comentário para a rádio, uma conversa sobre as vantagens muitas de cozinhar para você mesmo e de pedir mesa para um – o que obviamente também carrega seus desafios.

Veja só: senhor fulano ou senhora fulana pode comer sozinho/sozinha e aprender com a Taiga, se apegado/a a alguma companhia eletrônica ou a um livro.

Também pode desligar tudo e encarar ora quem você é, ora o prato de comida, como diz a M. F. K. Fisher em seu On Dining Alone.

Cartola de verdade: queijo manteiga, banana, açúcar e canela

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