Questão de ouvir os velhos

Eu pedia para ela me benzer sempre que eu tinha alguma coisa: sensação de tudo por um triz; decisão difícil de tomar; acidente de trânsito desses que fazem a cabeça girar sobre o pescoço e voltar para o lugar mexida mais pelas consequências morais do que as físicas. Uma panela que me escapava da mão. Várias distrações consecutivas compondo a estranha tessitura dos dias.

Não tenho religião. Não acredito em deuses permissivos do inaceitável e não vejo nada de sagrado nas manifestações de delicadeza e nos momentos mágicos. Acho que são o que são, manifestações de delicadeza e momentos mágicos. Sei também que a ninguém devo satisfação disso. Mas gosto de pensar na avó desatando nós que me apertavam. Me ajudava a respirar. E assim foi até que já tem uns anos que ela morreu e respirar se tornou um desafio um pouco maior. Era uma manhã fria de domingo, meu aniversário. Teve fome de café com leite e pão no começo de seu último dia.

A seu modo, minha avó era um tipo de mestre griô do microcosmo familiar. Benzedeira dos mais e dos menos descabeçados, zelosa difusora de receitas sem medida de bolo de nada, bolinho de chuva, feijão perfeito, café doce e coado, frango assado e minicoxinha. Aqueles espertos olhinhos azuis.

***

No outro dia, Vivi A. voltou de mais escavação no acervo do Museu da Pessoa trazendo as histórias de dona Lucília, bem como mais elementos para as nossas conversas sobre de onde viemos e para onde vamos; sobre o significado mais autêntico de “comida de vó” e a importância de ouvir os antigos e de tentar compreender seus gestos mesmo que seja para concluir que é melhor fazer diferente.

Ao ver falar a mestre griô dona Lucília, foi em minha avó que eu pensei. Havia ali os predicados das receitas e o sentar para entrelaçar metodicamente os fios do tempo. Das perguntas que eu não fiz, as respostas morreram com ela ou estão complicadas.

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Há pouco, eu não conhecia essa palavra. Griô (do francês griot). Na cultura popular, trata da memória viva de um lugar e de sua gente. Se refere às pessoas que guardam e retransmitem lembranças e modos de fazer. Benzedeiros, contadores de histórias, poetas, cantadores, quituteiros. Em certa medida, os griôs são os avôs e as avós da vida, que precisam ser escutados, porque seu conhecimento nem sempre está escrito e até pode, quem sabe, ajudar a preencher buracos da nossa própria existência. É preciso falar, observar, praticar gestos e receitas e, claro, não é proibido desafiar tradições. Desafiar sem ofender o ponto do doce de laranja também é se relacionar.

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