Música de passar no pão

Jack Vettriano, Dance me to the end of love (1998)

Do escocês Jack Vettriano. O que sai sobre ele na imprensa diz que é ‘odiado pela crítica’. ‘Dance me to the end of love’ tem o mesmo título da canção de Leonard Cohen

Dance me to the end of love, que no botão no fim deste texto você escuta com uma levada grega, do tipo que dá vontade de convidar Melina Mercouri para dançar mesmo se nunca aos domingos, é uma composição dos anos 1980. Na origem, foi primeira faixa do disco Various Positions, de Leonard Cohen, que morreu na semana passada. Para escrevê-la, Cohen teria se inspirado no holocausto, no quarteto de cordas que acompanhava o horror dos condenados em campos de concentração. Boa parte do público ao conhecer a música atribuiu a ela uma leitura de amor romântico, e assim ficou. O autor disse que tudo bem. Parece que as duas interpretações conduzem ao mesmo lugar: o fio da vida sendo consumido até o fim.

Quando a notícia da morte de Cohen começou a se espalhar, na noite do dia 10, eu já não conseguia mais dormir. Entrelinhas, achei uma frase atribuída a ele pelo The New York Times: A música é como o pão. É uma das formas fundamentais de nos nutrir.”

***

Usamos como epígrafe, porque sim. E, no fim das contas, do que falamos quando falamos de comida? Um nutriente fundamental do corpo e da cabeça.

Quando nunca se sabe o que fazer para o jantar, há uma angústia mais (ou menos) profunda e persistente. Não estar dando conta da vida, por exemplo. Ao comentar a boçalidade deslumbrada de um certo tipo de cobertura jornalística de restaurante e ‘chef’ e ao perceber a conversão constrangedora dos programas de receita em supostos ‘espetáculos da realidade’, existe, para algumas pessoas, um certo mal-estar. O que ele diz? Que dá preguiça, que não se compra a bobagem? Que viver na superfície é chato?

E o check-in desesperado para comprovar que se faz um percurso do ludo gastronômico? E aquele episódio de Black Mirror em que a moça morde um biscoitinho, coloca sobre o pires, tira uma foto? A vida é linda e gostosa no coffee break. Publica na rede social e enquanto contabiliza os likes (sua fome por eles é bastante real), cospe o doce fora e abandona o café com leite ruim.

Receita, modo de fazer, memória, gesto, poesia, afeto; o que sobra, o que falta. Ingrediente. Algum modismo desprovido de sentido, inventado por alguém em busca de uma saída (ou só mais uma curtida). Processos produtivos justos (e injustos), o preço das coisas, o ambiente, a cultura, o comer junto e à parte.

Quando se fala de comida, é da vida que se trata e, às vezes, ela é bem medíocre mesmo. O lugar é comum, mas existe. Fala-se da música para comer com o pão. Não se fala, mas se lida com elas o tempo todo: as linguagens empregadas na tentativa de informar, provocar, agradar. Comover. Convencer (o outro e a nós mesmos de alguma coisa que nos parece frágil, que nos torna frágeis, e daí o esforço, talvez).

A expectativa por um inspirar e expirar mais demorado depois da primeira mordida.

Uma confusão de coisas. Estamos vivos. Em caquinhos, talvez, mas ainda vivos.

Falamos, na comida, sobre quem somos e do que somos feitos. Se a constituição é forte ou cai com um sopro, num rodopio pelo salão. Falamos do que ainda desejamos, apesar do outro dia.

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