Turma de quem?

No Questão de Gosto da semana passada e da outra pensamos juntos sobre um monte de coisas, como sempre, mas lembro em especial de termos destacado que a criança forma o paladar desde muito cedo (como forma a leitora que tem em si bem antes de aprender a juntar e a separar letras, compor sílabas etc.). De mão com os adultos ao redor, desde o começo da vida, vai conhecendo os sabores e desenvolvendo suas preferências. Depois, quando já estiver pronta para cuidar dos pais (pode rir para não chorar nesta parte), terá condições de fazer as próprias escolhas, sair para caçar e trazer comida para a aldeia (é uma brincadeira, mas é mais ou menos isso desde tempos imemoriais, acho).

Falamos de como se pode usar a composição da lancheira deles para dizer coisas importantes (coisas de amor e recursos outros que lhes serão sempre úteis na formação do gosto e na terapia, quando resolverem falar da mãe, do pai e dos outros no divã :)). A lancheira é quase como uma carta, envelope escrito à mão um dia depois do outro.

Falamos também sobre não subestimar o paladar dos pequenos; que tem gosto para arroz e feijão e uma queda por guloseimas que afinal não precisam sempre andar por aí sob a sombra terrível da tentativa de homicídio. Hambúrguer? Não mata. Aqui, comemos toda semana em alguma lanchonete preferida ou feito em casa. Também faço variações de molho para o macarrão (branco com creme de leite gordo, sugo, bolonhesa, só manteiga e grana padano, com ovo, com bacon). O formato preferido atualmente é o de letrinhas, para ajudar a compor o vocabulário em tempos de pré-alfabetização.

O chamado menu kids do restaurante, definitivamente, não tem de existir na batata sorriso, né? Batata, aliás, não precisa sorrir. Ou melhor: poderiam modelar batatas orgânicas de origem com todo tipo de sentimento. Aí o assunto fica interessante, mais realista. No mais, acho que o adulto in charge pode dar uma boa olhada no cardápio e improvisar ali uma composição velha ou nova, sobretudo gostosa, que todo mundo compartilhe.

Os restaurantes às vezes dizem que “ah, para ela eu tenho um arrozinho com bife e fritas. Pode ser carne, frango ou peixe. E nugget!” e não sabem o que fazer quando a opção recai sobre o macarrão, massa fresca da casa, com ragu de linguiça; só que traga por favor o ragu de linguiça em um pote separado, a gente coloca o molho aqui mesmo, tudo bem? Não. Acho complicado, diz pelo olhar o funcionário. A dificuldade me escapa, tento pegar distância para ver se estou sendo encrenqueira. Não. Não estou. Se a comida é feita na hora, molho na praça de molho e massa na praça de massa, qual a grande dificuldade de levar à mesa assim? Não estou pedindo para fazer o ragu de linguiça sem linguiça, né?

Outro dia a pessoa se atrapalhou tanto com essa questão que o outro prato que íamos dividir (paleta de leitão, lentilha e batata-doce) foi  “esquecido”. Demorou um pouco mais e, quando veio, foi almojanta. Já estávamos em um torneio de forca interestelar. A batata-doce, cozida no ponto certo, gostosa, mas sem sorriso, quem comeu foi a menina.

***

Assunto antigo e atual. Guardando aqui um depoimento que fiz em outro lugar. Depois de ler a crítica de hoje 21 de outubro de 2015 sobre o restaurante da Seara patrocinado pela Turma da Mônica (foda), na Folha, resolvi ver os comentários no Facebook do jornal. A louça e as frutas da feira, o trabalho e um conto da Alice Munro estavam me esperando, mas mesmo assim eu fui e vi: a maioria é mais tóxica do que o bufê terra de ninguém que a jornalista enfrentou por três vezes e pagando a conta.

Saí do palavroso observatório pensando nesses tempos doidos em que há tantas pessoas orgulhosas da própria burrice obtusidade. Para boa parte delas, não é errado o lugar falhar em sua função elementar. Errada está a autora do texto que reporta isso. Que lástima.

(a tal chácara chama para si a importante e perigosa responsabilidade de ser um restaurante de temática infantil, e não passa na prova da comida e do atendimento).

O que eu aprendi nos últimos quatro anos e espero aprender mais:

1) Saiu de casa, tem de se adaptar e fazer escolhas.

2) Quando não estou com vontade de sair para comer com a menina de quatro cinco anos ou simplesmente quero ir a algum lugar que não tem clima para ela, a gente se organiza e cada uma faz o que gosta. Separadamente.

3) Casas bacanas para levar criança são aquelas em que a comida é limpa, o atendimento é educado, a atmosfera favorece. Qualquer coisa boa além disso estará ao redor da mesa, na conversa e no relacionamento com seus pais ou afins. Pode parecer incrível, mas não precisa (é sério, já experimentei) de playcenter particular, nem de monitores (…), nem de computador, telefone “inteligente” ou efeitos especiais. Enquanto espera, a criança pode conversar, observar o mundo ao seu redor, fazer desenhos, jogar jogo da velha, palitinho, forca, pensar na vida e levar umas broncas para parar de ser chatinha (e ela vai ser chatinha muitas vezes, o jeito é botar esforço para tentar aliviar o desconforto geral).
Quando eu saio para comer com ela, sempre levo um caderno, canetas coloridas, lápis preto e de cor. Vai em uma bolsinha que é dela. E todos à mesa podem usar.

4) Adultos sem educação não devem levar crianças ao restaurante. Adultos sem educação não devem sair de casa.

5) Atendimento bom e comida limpa são condições para qualquer faixa etária.

6) Não existe isso de comida de criança, menu kids. Sempre (ou quase, tem dia em que mesmo tendo ele não vai gostar) vai ter alguma coisa que seu filho vai gostar. Pode ser que seja frito. E daí? E daí se for frito hoje?

7) Para o inferno com os tais “pratos infantis”, na linha batata frita flácida, arroz desgostoso e bife sem vergonha. Acho um desaforo. Minha filha e eu, com variações de gosto, botamos para dentro o mesmo tipo de comida e queremos ela bonita e gostosa.

8) Não sou muito fã, mas desde sempre meu personagem preferido na turma da mônica é o Louco. Turma do Louco? Me chama que eu acho que vou.

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