Por que repetimos? Porque sim

Comemos a vida alheia para viver.
A falecida costeleta com o finado repolho.
O cardápio é um necrológico.
(Wislawa Szymborska, um pedacinho de Coação [um amor feliz])

Porque sim não é resposta. Por que não? Não sei. Justamente! Acabei de esvaziar um segundo prato de comida. Almocei duas vezes arroz, feijão e carne moída. A explicação é que estava bom e eu tinha duas fomes para usar. Fora que juntei rodelinhas de banana-prata para atribuir doçura e novidade. Não tinha escapatória. Veio tudo muito gostoso, sim, um tudo que restou de ontem no fim da tarde, quando eu fiz a composição (sem o adorno da fruta) e ela foi tão bem recebida. A menina, por exemplo, jantou dobrado. Eu? Talvez tenha triplicado. Minha memória tem zombado de mim. Ou eu dela. Não lembro.

Valeu, afinal, enfrentar a cara feia e a má vontade habitual dos açougueiros ao pedir que moessem na hora 250 gramas de patinho e 250 gramas de alcatra. Sair para o mundo não é fácil. Pior no calor. Sair para o mundo no calor e se sentir complicada por causa de algo que deveria ser simples é infernal.

Abre o parêntese para o relato quase selvagem: queriam os funcionários do açougue que eu escolhesse bandeja pronta. Fica à vontade, pega uns bifes e eu passo na máquina para você. Respirei. Queria eu mandar cortar as cabeças deles, mas isso não parecia razoável. Apenas disse não, obrigada, prefiro que sejam moídos na hora.

Seguem-se alguns segundos de entreolhadas fatais em que todas as gerações dos Zandonadi & Co. foram devidamente amaldiçoadas. Passa a faca de uma mão para a outra, amolando faíscas de incredulidade. Lembrei das tantas vezes em que algo assim ocorreu, ali mesmo ou em outras lojas. Lembrei das ocasiões em que eu, desanimada, usei raras forças para esfriar a Sophia Loren que existe em mim e até me des-cul-pei por pedir o trivial. Pior. Em alguns casos, entrei sem erguer a cabeça, peguei a bandeja, conferi a validade, paguei e saí.

Ontem não foi assim. Perguntei, como se perguntasse a um auditório de dois açougueiros, o que é que foi e se era errado pedir para moer na hora…, por que afinal sempre essas caras de poucos amigos, de francamente isso não se faz? Não é isso, senhora. É só que, ir até lá, pegar o corte, limpar e moer, demora mais. Esses já estão prontos. Ah, o tempo. Sempre ele. Tudo bem, não tenho pressa. O que eu disse a seguir não vou contar, mas não foi palavrão. Só expliquei que parece menos certo do que fácil constranger o outro quando se está com a faca na mão.

Por que quem fatia frios ou trabalha no açougue quase sempre demonstra uma vontade de nos devorar o fígado, sem trocadilhos, ao menor pedido fora da bandeja? Acho que o único açougueiro legal e realmente gentil que eu já vi foi o de um filme de Claude Chabrol. Mas, no fim, parece que ele era canibal. Fazer o que, né? Os zangados todos, se fossem tirar um expresso, envenenariam o próximo.

Não era sobre isso que eu ia falar, você sabe. Fecha o parêntese agora e me responde: por que repetimos? Porque está muito gostoso, porque a fome é muita. Pode ser. No restaurante, porém, o que se paga não dá nunca direito a repeteco. Só no serve-serve, que cobra por pessoa, e não por quilo. Lá você come a vontade (e à vontade) e, em geral, por força de empolgação, entusiasmos muitos, até comete uns crimes. No à la carte, isso não se faz. Se quiser, tem de pedir outro e bancar a decisão em todos os sentidos, como no dia em que eu quis uma porção de pastelzinho de queijo no fim do churrasco, o pessoal todo no sagu com nata.

O pedido vem, a gente come, paga, agradece, vai embora. Quantas vezes eu teria dito sim se o chefe do salão perguntasse se poderia trazer mais um pouco de polenta italiana ao ragu de linguiça?

Vai ver em casa a gente come em pequenas prestações de propósito, para prolongar aquele festim sem pressa. Um pouco mais de caldo na segunda vez. Um pouco mais de carne. Quem sabe uma pimentinha?

No bandejão da firma, já cheguei a torcer para que meus colegas pegassem sobremesa, assim eu poderia voltar e, enquanto eles devorassem abacaxi ou gelatina, eu comeria mais um bifinho a cavalo. Não faço questão de doce, como já percebeu. Minha parte em linguiças, por favor.

E vou repetir. Mais uma caipirinha de limão e outro acarajé. É que o pessoal já pagou a conta. Ah, abre outra. É sábado.

Por que a gente repete?
Por que nos maltratam no açougue?
Por que estou falando disso outra vez?

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