Acertei no milhar (foi apenas um sonho)

Já passava das cinco e meia da tarde. Menos de vinte minutos depois, eu teria de percorrer de ponta a ponta avenidas largas e ruas estreitas em 600 segundos, para chegar antes das 18h no lugar importante do dia. Sem correr, respeitando os limites, irritando os outros impacientes. Era uma tarde iluminada e muito quente, como são todas elas depois que a primavera chega e vai sendo ela, clara demais, quente demais, úmida, sonolenta, até virar um verão em corpo bold (e penso que tudo piora de um jeito insuportável).

O horário de verão serve para eu ter sono e reclamar. E para escutar Estate, com João Gilberto, em versão Amoroso. Serve também para eu sentir um desejo enorme de sábado depois do almoço e à sombra na casa dos meus pais, no litoral. Os olhos fechados, ouvindo. Ele teria assado um peixe simples, inteiro, na churrasqueira; ela teria feito pirão, arroz branco, salada e farofa de camarões miúdos. O sol castigando a piscina e deixando em tudo um enorme silêncio. A hora proibida e deserta do dia. Doce de abóbora, de beterraba e de batata-doce sobre o balcão.

Nada disso. Uns pingos brilhantes caindo lá fora (mais bonito do que arco-íris). O apartamento fresquinho quando subi do mercado trazendo na sacola bacon, camarão e leite de coco. Os segundos iam tombando e eu não tinha certeza de nada. Misturo tudo? Deixo o bacon para o dia em que eu for cozinhar o feijão? Respondi aos emails? Paguei a conta de luz? Comprei o novo interfone porque derreti o velho e não quero falar disso?

Abri todas as janelas e fui fazendo, as respostas surgindo meio que sem querer: na frigideira larga, fritei no azeite os pedacinhos de barriga de porco. Guardei. Passei no óleo quente e sujo de bacon as lâminas de alho. Guardei. Joguei naquela mesma panela uma porção de camarões GG. Evaporou um cálice de vinho branco. O outro eu bebi, como de hábito. Voltei o alho, botei sal, moí a pimenta do reino. Crec, crec. Já era tarde demais quando liguei as turbinas do exaustor e cobri os cabelos com um lenço. Espremi na mão um tomate pelado, derramei meio copo americano de leite de coco. Mais quinze minutinhos e o arroz branco ficou pronto. Misturei ao bacon. Sem vergonha nenhuma, incoerente, agradeci a invenção do horário de verão. Vou me atrasar, mas não estará escuro ainda.

Cobri as panelas e prendi os cheiros todos, muito bons, dentro de casa. Eu tinha acertado no milhar e ainda não sabia. Só sentia um contentamento meio sem nome, um sossego no peito – sossego profundo e simples. Antecipação da volta. Eu e a guria e os pratos fundos e as colheres que já estariam em seus lugares. Tem dia que a gente se sente como quem partiu E morreu. Não faz nenhuma comida e tudo o que a criança quer é saber o que tem e tudo o que a gente quer é desaparecer em um enorme, redondo e bem fornido não sei.

Jantamos, tomamos banho fresco. Ela brincou, eu li. Eu brinquei, ela leu. Jantamos outra vez, discutimos sobre saber gostar do chocolate amargo e orgânico – tem certeza de que isso é muito bom para mim, perguntou ela com ar de sinto muito. Bebemos água gelada. Guardei a comida que sobrou em um pote só. Pensei que quero ir para Lisboa. Um estampido da tampa – que adoro – e parei de sonhar. Ela, a tampa, tem quatro abinhas que estalam ao se agarrar ao vidro. Me parece que usar aquilo deixa tudo tão certo e seguro. Antes de dormir eu ainda precisava comer os chocolatinhos amargos abandonados sobre a mesa. O jeito foi me entregar a um tantinho mais de sauvignon blanc da Nova Zelândia.

Tive um pesadelo horrível, outra vez o mesmo em que estou andando com ela sobre o que parece ser uma calçada, na beira da água, céu otimamente nublado. De repente, aquele pedaço de concreto se descola e vai avançando para alto mar, motor ligado e eu não vejo quem desgoverna aquela balsa em alta velocidade e tenho um pressentimento muito ruim. Somos só nós no meio de um oceano cor de chumbo? Não. Tem um motorista que ninguém vê. Isso parece horrível e acordo antes de saber. Não esqueço desse medo real. Lembro de contar para ela, forçando um tom de aventura. Ela diz que, puxa, adoraria ir para o meio do mar. Isso não é pesadelo, mamãe. Aprenda.

Hoje trabalhei em silêncio a manhã toda, não sinto calor – não deixo entrar. Duas da tarde uma fome grande aparece. Me livrei de algumas páginas e posso esquentar o jantar que sobrou, em uma panela só. Arroz de ontem, agora um caldo mais consistente, que se acha quase um creme, marcando os caminhos todos. Bacon, camarão. A doçura do coco, a agulhada ligeira da pimenta moída sobre o prato fundo. Uso a colher. Era isso.

Acertei no milhar quando fiz comida para sobrar. Não ouvi Moreira da Silva (mentira, ouvi), não libertei Etelvina, não quebrei os móveis, não me desfiz das roupas. Deitei depois de comer, para ouvir Estate de olhos bem fechados, e antes de retomar os trabalhos. O que tem para hoje à noite? Não faço ideia. Não quero saber. Há ainda algum tempo para pensar e até sentir aqueles bracinhos macios enroscados em mim a perguntar, como sempre, mãe, o que tem de jantar? A resposta depende. Um improviso. Sei lá. Esse calor deixa a espera por um acontecimento mágico ainda mais larga. Às vezes, difícil. A ver.

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