Como mentir dizendo a verdade

Sublinhei em grafite macia, lápis 6B: “Procurei as palavras para mentir para ela dizendo a verdade”. Que raiva. Elena Ferrante é foda. Vivo com raiva dela. E talvez com inveja, claro. Nenhum desses sentimentos me intoxica. Não é esse o tipo de raiva ou de inveja que ela provoca. Do meu lugar, aliás, digo que não tenho vontade nenhuma de tomar café ou de almoçar junto ou dividir a sobremesa. Se ela tiver olhos, não faço e menor questão de que os coloque em mim. Não desejo lhe fazer nenhuma pergunta. Um encontro outro que não fosse esse em que ela escreve e eu leio a mim só faria medo ou talvez me desapontasse.

Já estive perto de pessoas geniais em seu ofício e, digamos, diferentes em sua rotina doméstica ou no elevador ou no balcão do bar, ou no sofá de suas casas ou escrevendo cartas. Algumas ridículas. Eu já escrevi cartas ridículas e não sou genial, mas daí temos um outro problema. Voltando ao encontro, mesmo que isso jamais acontecesse eu não preciso arriscar um tipo de desilusão. Bobagem. Mas acho que preciso de seus livros. Que tenha, afinal, uma boa saúde, morra muito velha e, até lá, continue. E como eu não sou jornalista de literatura e não faço crítica de nada, me sinto livre para dizer outra vez: é foda.

Não consigo imaginá-la chorando ou se sentindo violentada em sua privacidade pelo jornalista italiano que teria supostamente revelado sua identidade. Talvez esteja. Penso, no entanto, que o que ele fez não é nada perto do que ela (ela quem?) faz de bom e de ruim com seus leitores. O cara talvez tenha sido um pequeno idiota. Talvez. Sei lá que motivos teve e não me interessam. Ela, seja quem ou o que for, é grande. Ainda que um dia algum desesperado consiga, sei lá, provar que não existe, suas lombadas continuarão a interromper a passagem dos dedos nas fileiras de estantes, bibliotecas e livrarias mais ou menos iluminadas e empoeiradas. Aí é só puxar.

Demorei um pouco para começar e então li todos os livros que foram publicados no Brasil até agora. Mal posso esperar para botar os olhos nos que virão. Quis terminar logo cada um deles e, no fim, não queria que acabassem comigo. Me senti abandonada por todos. E disso eu também gostei bastante. Depois de passar uns dois ou três anos sendo (e gostando de ser) constantemente remexida por Alice Munro e também, um pouco, por Natalia Ginzburg, em poucas semanas passei a deixar Elena, outra mulher afinal, entrar em mim de uma maneira ainda mais impressionante.

A suposta revelação da “verdade” sobre o enigma não me ofendeu, como acho que eu já disse. Isso, sob o escrutínio da fiscalização do que é certo e do que é errado, talvez soe como, não sei, falta de caráter, de vergonha, de respeito? Falha de julgamento? Qualquer coisa assim. Não poderia me importar menos. Até essa história toda do que é inventado e do que não o é daria um bom romance que só ela escreveria direito e sem um sentido de obrigação de explicar coisa alguma, com a sinceridade brutal que lhe é característica e diante da qual nem todo suposto dono da “tal” verdade tem coragem de se colocar.

O que eu mais gosto em seus livros é que são crus no melhor dos sentidos. Não precisam de um ponto a mais. Não dão voltas, enfrentam. E fazem parecer natural sermos imperfeitos, perigosos e feitos de açúcar ou farinha a se desmanchar na próxima virada. Despedaçados seguiremos. Simples. Basta um golpe, um degrau, um sopro, um conflito. Depois, o pó se junta outra vez, há uma nova liga. Um vaivém que teoricamente acaba quanto termina.

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