Escritório doméstico

Quase todo mundo sabe que uma das coisas boas de trabalhar a maior parte do tempo em casa é ficar sozinho. Sempre gostei. Eu acho que sei bem como tudo funciona aqui dentro, um tudo controlado e descontrolado por mim. Estar lá fora requer uma energia diferente, não precisa ser maior ou menor. Uma energia de adaptação constante e, muitas vezes, por preguiça de gastar recursos que às vezes não tenho porque não quero ter, eu prefiro ser um bicho do mato. Não é por mal, não é por bem. É só mais seguro e quentinho (para mim).

Uma das coisas ruins (de trabalhar em casa) é ter a função misturada aos barulhos e às questões domésticas. Você sabe que está lá a cama ainda desarrumada no quarto, por exemplo. É um incômodo neurótico. Eu sempre arrumo, depois do café da manhã e antes de sair de casa. Preciso lembrar de não esquecer de esticar os lençóis ou eles ficam ali, dividindo a rotina doméstica comigo. Bagunçados como os meus cabelos e amontoados feito uma porção de pensamentos.

Menos ruim do que perigoso são a geladeira ao meu dispor e a vontade – e a possibilidade é real – de beber uma cerveja com bastante espuma no meio do dia depois de mandar um trabalho. Aquela sensação de ir até o fim. Ou depois de passar aspirador e limpar as maçanetas com álcool.

Os cheiros distrativos e quase sempre agradáveis que escapam das cozinhas ao redor não dão em nada. Só me lembram da minha incompetência para fazer um bife à milanesa rapidinho, em um rodopio de pantufa. Eu demoro. Depois vem o perfume de café que sempre me obriga a repetir o gesto. Coar o meu.

Gosto dos uivos do vento. Não gosto das portas que batem. Em quase todas as redações que trabalhei, o ar era aquele encaixotado, não tinha vento natural. Dificilmente havia portas por bater, embora sobrasse vontade de fazê-lo com violência. Estranho.

Há alguns dias sobrevivemos, eu e a menina, a um home office ao extremo. Ela adoeceu. “Estou como você, mamãe, a cabeça dói quando eu me movo.” Precisou ficar comigo por dois dias. Passaram. Não vi. Hoje já é praticamente amanhã. Alivium, termômetro, cantarola ou adormece, espio de canto se está desenhando animada ou se está abatida; quer água? Encosta aqui e deixa eu ver se tá quente. Que foi? Dói? Vai vomitar? Tem fome? Quer mingau? Vamos ficar juntinhas?

No fim de tarde de temperatura amena (a dela) e a pessoa já um tanto atrevida para ver Netflix sem fim, eu digo que foram muitas as horas na frente da televisão e chega. Ela disse eu sei, mãe, ficar com a cara enfiada em uma tela por tanto tempo deixa a gente com a cabeça boba. “Só que hoje eu estou de folga. E você, mamãe? Fica o tempo in-tei-ro trabalhando com a cara enfiada nas telas… Toda hora…” (aquele ar de conclusão instantânea, de eu sei que você sabe que eu sei).

Nos dias seguintes o tempo se foi rapidamente e eu estava sempre atrasada. Senti uma falta enorme da pequena cúmplice jogando verdades na minha cara enquanto trabalhava em suas primeiras palavras. “Eu confundo o Q de queijo e o C de Catarina, mãe. Vou usar o roxo para desenhar palavras com Q e o azul para palavras com C. Vamos lá?” Quando se cansou, já estávamos no V ou F. Perguntou por que não pode escrever ‘folia’ de papel. “Por que existe h com som de inhame?” E então inventou uma canção. Assim: “o que eu pretendo são coisas tão diferentes, sou a menina das palavras… p de pato… e gosto desse nome Catarina. No meio do nada.”

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