Questão de piquenique, gestos e saudades

Fiz um piquenique no Jardim Botânico de São Paulo no sábado passado. Estava a ponto de bater a porta quando vi uma reportagem que falava de empresas especializadas em organizar piqueniques. As pessoas chegam a pagar 2 000 reais para ter mobiliário, acessórios e quitutes sob medida para a ocasião. É basicamente um suporte material. Normal. Parei um pouco e encarei com certa ternura meu modesto tupperware cheio de sanduíches de pão de forma branco, maionese e salame. Eu não tinha cestinha de vime, sempre quis ter, sabe? Mas o escorpião que mora no meu bolso, quando não cochila, não me deixa comprar. Lá fui eu carregando sacolinhas descoordenadas, mas arrumadas, toalha xadrez e copinhos de papelão da Alice no País das Maravilhas, cenografia herdada de um aniversário da minha filha na escola. Improviso. Gostei. (e isso tudo deu origem ao Questão de Gosto de hoje)

Eu vinha salivando por aquele pão com maionese e salame, beber junto uma cerveja. Durante a montagem dos lanches, comi vários. Passei quase uma hora cuidando de cada um deles, cortando-os na diagonal, embrulhando no papel alumínio e lembrando dos tempos em que a gente ia passar o dia na praia, a mãe fazia e levava os sanduíches de queijo e presunto que, quando eu mordia, chegava a sentir o grãozinho de areia. Costumo ter uma profunda preguiça de fazer esse tipo de coisa atualmente, da farofinha na praia, quero dizer. Mas ela tem um registro importante na minha memória de gosto.

O piquenique moderno, de preparativos terceirizados, existe, como existem outras soluções de conveniência, porque há alguém disposto a pagar por isso em uma demanda autêntica, legítima, um reflexo do nosso tempo – da nossa falta de tempo, digamos. Se você pensar em convidar uma porção de amigos para oferecer a eles uma festa diferente, ao ar livre, essa organização é ótima, se faz necessária: delega a logística e se concentra em receber. Lindo. Recorremos ao material para chegar ao essencial, né, e tudo bem.

Fiquei pensando, porém, na questão de fundo do piquenique, que é o gesto do comunitário, do compartilhar não só o resultado, mas os preparativos. Piquenique à moda antiga é gracioso. E restaurador. Comer ao ar livre, ocupar o espaço público, em que cada participante contribui com um prato de comida num momento bom, simples, despreocupado, uma toalha ou manta ou esteira coberta de soluções espontâneas, de improvisos, e que oferece um retorno emocional poderoso. (“fazer um passeio em que cada participante arca com a sua cota na despesa, (1718) refeição em conjunto ao ar livre, geralmente sobre a relva’; f.hist. 1858 pique-nique, 1881 piquenique.”, diz o Houaiss.)

Vivemos esses dias de tudo ao mesmo tempo. Somo atropelados, empurrados e nos embolamos em demandas autênticas, saudades muitas e buscas onde o que nos falta, lá dentro, são os gestos. Ao mesmo tempo em que queremos atalhos, desejamos sair de casa e pisar na grama quase despreocupados; “ver” a mãe preparar o sanduíche; “ver” o pai encher o galão de água. Isso, nem se os fornecedores de piquenique incluírem entre os acessórios uma relva sintética. É o que é: artificial.

Na tentativa de buscar vestígios dessa minha teoria, recorri ao banco de dados do Fatias de Memória, a seção de depoimentos de comidas afetivas do Lembraria.com. Quando as pessoas falam de suas lembranças de comer, o que elas escolhem destacar em seus depoimentos vai além do gosto. É uma quase infinita saudade dos gestos. As memórias são as mais variadas, mas o gosto, naquele recorte, surge a partir dos movimentos que deram forma à comida.

Trouxe um exemplo, em que a Regina Pereira, conta do tempo em que no sertão de Minas, ela era criança e se fazia um mutirão de dois dias para “arrumar” o porco de engorda, abatido. Você pode ler no original, neste link. É uma questão de gesto e retrato de uma época em que “o prato de ágata coberto por um pano de saco transportava gentileza culinárias”, como o arroz de suã que todo mundo comia.

(…) Tempos de solidariedade, de mutirões. “Arrumar” o porco, como se dizia, era trabalho pra dois dias, pra muita gente. Os vizinhos acorriam, pra ajudar. E, na vez deles, acorríamos nós, numa corrente inquebrantável. Do porco só não aproveitávamos o grito. (No mais, tudo virara alimento: as tripas, o sangue, o couro, o bucho. Até chegar às carnes nobres, o caminho era longo) (…) Mas a peça de resistência desse trabalho todo era o prato servido pro mutirão: arroz com suã, sendo a suã a espinha dorsal do porco, um mundo de osso e tutano com uma carninha que se cozinhava lentamente num tacho de arroz. Servida com feijão, mandioca derretendo e couve, essa iguaria alimentava meio mundo. Ainda hoje como arroz com suã feito no fogão a lenha de minha casa mineira (…), mas o sabor não é o mesmo, faltam a ele minha infância, meus pais ainda vivos, meus vizinhos solidários, o prato de ágata coberto com pano de saco alvejado que ia e vinha de casa em casa retribuindo gentilezas culinárias.

Tem uma canção chamada Fazenda, interpretada pelo Milton Nascimento, uma voz de Minas, que resgata essa atmosfera. É bem essa imagem que a Regina trouxe no depoimento dela. A canção fala de água de beber, da bica no quintal, fala da sede de viver tudo. Diz que o esquecer era tão normal que o tempo parava. “E a meninada respirava o vento/Até vir a noite e os velhos falavam coisas dessa vida/Eu era criança, hoje é você, e no amanhã, nós.”

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